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Sobrado de Dulce Sarmento - Sede do Instituto Histórico e Geográfico de Montes Claros


 

NOTAS DOS
COORDENADORES DA EDIÇÃO

A ordem de publicação dos trabalhos dos associados efetivos obedeceu à sequência alfabética dos nomes dos autores. Em seguida, foram ordenados os trabalhos dos associados correspondentes e convidados;

A Revista não se responsabiliza por conceitos e declarações expedidos em artigos publicados, nem por eventuais equívocos de linguagem nela contidos.

A revisão dos originais foi feita pelos próprios autores dos artigos
publicados.

FINS DO IHGMC

Art. 2º - O IHGMC tem como finalidade pesquisar, interpretar e divulgar fatos históricos, geográficos, etnográficos, arqueológicos, genealógicos e suas ciências e técnicas auxiliares, assim como fomentar a cultura, a defesa e a conservação do patrimônio histórico, artístico, cultural e ambiental do município de Montes Claros e região Norte de Minas.

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INSTITUTO HISTÓRICO E GEOGRÁFICO DE MONTES CLAROS

Sobrado de Dulce Sarmento
Rua Cel. Celestino, 140 - Centro - 39400-014 - Montes Claros/MG
(Corredor Cultural Padre Dudu)

REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO
E GEOGRÁFICO DE MONTES CLAROS

Publicação Semestral

Diretor e Editor
Dário Teixeira Cotrim

Conselho Editorial
Dário Teixeira Cotrim
Wanderlino Arruda
Sebastião Abiceu
João de Jesus Malveira

Editoração e Diagramação
Gráfica Editora Millennium Ltda.

Fotografias
Dário Cotrim, Clarice Sarmento, Dóris Araújo, Felicidade Patrocínio,
Juvenal Durães, Marilene Tófolo, Sebastião Abiceu e Wanderlino Arruda

Impressão
Gráfica Editora Millennium Ltda.
ISBN: 978-85-67049-73-1

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CAPA: Sobrado de Dulce Sarmento


SUMÁRIO

Diretoria 2016-2017 – 7
Lista de associados efetivos – 9
Associados correspondentes – 11
Apresentação – 13

ARTIGOS DIVERSOS DOS ASSOCIADOS DO IHGMC
Clarice Sarmento
Tradição e modernidade nas Festas de Agosto de Montes Claros – 17
Dário Teixeira Cotrim
Frei Clemente de Adorno – 23
Dóris Araújo
Ao Poeta Brejeiro com carinho – 32
Felicidade Patrocínio
Monumento histórico literário da saúde de Minas – 36
Ivana Ferrante Rebello
Cordéis, cordelistas e mineiridades – 41
Juvenal Caldeira Durães
Romildo Borges Mendes – 54
Leonardo Álvares da Silva Campos
Origens do homem e do estado – 63
Manoel Messias Oliveira
A integração nacional pelo Rio São Francisco – 66
Mara Yanmar Narciso
Vamos brincar na Praça de Esportes? – 71
Mara Yanmar Narciso
Venham pra feira! É em Montes Claros! – 75
Maria Inês Silveira Carlos
Inauguração do prédio da prefeitura de Francisco Sá
e a chegada da luz de Santa Marta – 80
Marilene Veloso Tófolo
Simeão Ribeiro Pires o pesquisador – 84
Roberto Carlos Morais Santiago
Cachaça Havana & Anísio Santiago - 74 anos de história – 75
Téo Azevedo
O cerrado é minha inspiração, a viola, o viver e a poesia – 93
Virgínia de Abreu e Paula
Ruth Tupinambá Graça – 97
Wanderlino Arruda
Corografia Mineira – 100
Wanderlino Arruda
Janaína – 103
Yury Vieira T. de Lélis Mendes
Daniel Oliva T. de Lélis
Capitão Camilo Cândido de Lélis – 107
Zoraide Guerra David
Prólogo para “Os poderes da leitura” – 125
ARTIGOS DIVERSOS DO IHGMC
Honorato Ribeiro dos Santos
A morte do Velho Chico – 131
Maria das Graças Patrocínio Oliveira
Ela nasceu para brilhar – 135
José Prates
O Café Galo veio de longe - 143


DIRETORIA 2016- 2017


PRESIDENTE DE HONRA Dr. Luiz de Paula Ferreira
PRESIDENTE Lázaro Francisco Sena
1º VICE - PRESIDENTE Regina Maria Barroca Peres
2º VICE - PRESIDENTE Manoel Messias Oliveira
DIRETOR-SECRETÁRIO Maria Aparecida Costa Cambui
DIRETOR-SECRETÁRIO ADJUNTO Maria do Carmo Durães
DIRETOR DE FINANÇAS José Ferreira da Silva
DIRETOR DE FINANÇAS ADJUNTO Sebastião Abiceu dos S. Soares
DIRETORA DE PROTOCOLO Wanderlino Arruda
Diretor de Comunicação Social Itamaury Teles de Oliveira
Diretor de Arquivo, Biblioteca e Museu Dário Teixeira Cotrim

CONSELHO CONSULTIVO

Membros Efetivos
Palmyra Santos Oliveira
Edwirges Teixeira de Freitas
Maria de Lourdes Chaves
Membros Suplentes
Terezinha Gomes Pires
Milene A. Coutinho Maurício
Hélio Veloso de Morais

CONSELHO FISCAL

Membros Efetivos
Juvenal Caldeira Durães
Expedito Veloso Barbosa
Eustáquio V. Santos Macedo
Membros Suplentes
Reinine Simões de Souza
Roberto Carlos Morais Santiago
Antônio Augusto Pereira Moura

COMISSÃO DE GEOGRAFIA E ECOLOGIA

Zoraide Guerra David
José Ponciano Neto
Magnos Denner Medeiros

COMISSÃO DE HISTÓRIA E ARQUEOLOGIA

Denilson Meireles Barbosa
Leonardo Álvares da Silva Campos
Maria Rejane Rodrigues Ruas Colares

COMISSÃO DE ANTROPOLOGIA,
ETNOGRAFIA E SOCIOLOGIA

Maria Ângela Figueiredo Braga
Maria Felicidade Patrocínio Oliveira
Antônio Alvimar de Souza

COMISSÃO DE CLASSIFICAÇÃO E DE
ADMISSÃO DE SÓCIOS

Marilene Veloso Tófolo
Maria Luiza Silveira Teles
Geralda Magela de Sena Souza

COMISSÃO DE DOCUMENTAÇÃO E PUBLICAÇÃO

Dário Teixeira Cotrim
Wanderlino Arruda
Ivana Ferrante Rebello e Almeida

COMISSÃO DE VISITA E APOIO

João de Jesus Malveira - Coordenador
Dário Teixeira Cotrim
Edvaldo Aguiar Froes
Ângela Martins Ferreira


LISTA DE SÓCIOS EFETIVOS DO IHGMC

CD
Sócios
Patronos
01
Edvaldo de Aguiar Fróes Alpheu Gonçalves de Quadros
02
Escritora Milene A. Coutinho Maurício Alfredo de Souza Coutinho
03
Padre Antônio Alvimar Souza Antônio Augusto Teixeira
04
Maria do Carmo Veloso Durães Antônio Augusto Veloso (Desemb.)
05
Dóris Araújo Antônio Ferreira de Oliveira
06
Prof Marcos Fábio Martins Oliveira Antônio Gonçalves Chaves
07
Professora Maria Aparecida Costa Antônio Gonçalves Figueira
08
Professora Anete Marilia Pereira Antônio Jorge
09
Professora Isabel Rebelo de Paula Antônio Lafetá Rebelo
10
Professora Maria Florinda Ramos Pina Antônio Loureiro Ramos
11
Professor Sebastião Abiceu Ary Oliveira
12
Dr Antônio Augusto Pereira Moura Antônio Teixeira de Carvalho
13
Dr Cesar Henrique Queiroz Porto Ângelo Soares Neto
14
Ana Valda Xavier Vasconcelos Arthur Jardim Castro Gomes
15
Jornalista Magnus Denner Medeiros Ataliba Machado
16
Dr Waldir de Senna Batista Athos Braga
17
Profa. Marta Verônica Vasconcelos Leite Auguste de Saint Hillaire
18
Dr Petrônio Braz Brasiliano Braz
19
Dr Luiz de Paula Ferreira Caio Mário Lafetá
20
Professora Felicidade Patrocínio Camilo Prates
21
Profa.Terezinha Gomes Pires Cândido Canela
22
Dr. Luiz Giovani Santa Rosa Carlos Gomes da Mota
23
Historiador Hélio de Morais Carlos José Versiani
24
José Ponciano Neto Celestino Soares da Cruz
25
CD ASSOCIADOS EFETIVOS PATRONOS Corbiniano R Aquino
26
Profa. Maria Rejane Rodrigues Ruas Colares Cyro dos Anjos
27
Professora Regina Maria Barroca Peres Dalva Dias de Paula
28
Jornalista Jerusia Xavier Arruda Darcy Ribeiro
29
Professora Filomena Luciene Cordeiro Demóstenes Rockert
30
Escritora Maria Lúcia Becattini Miranda Dona Tirbutina
31
Professora Clarice Sarmento Dulce Sarmento
32
José Catarino Rodrigues Edgar Martins Pereira
33
Dr Wanderlino Arruda Enéas Mineiro de Souza
34
Profa. Geralda Magela de Sena e Souza Eva Bárbara Teixeira de Carvalho
35
Dr. Antônio Ferreira Cabral Ezequiel Pereira
36
Dra. Felicidade Vasconcelos Tupinambá Felicidade Perpétua Tupinambá
37
Evaldo Gener de Fátima Francisco Barbosa Cursino
38
Professora Maria Inês Silveira Carlos Francisco Sá
39
Professor Ivo das Chagas Gentil Gonzaga
40
Drª Maria da Glória Caxito Mameluque Georgino Jorge de Souza
41
Dr Reinine Simões de Souza Geraldo Athayde
42
Professora Maria Luiza Silveira Teles Geraldo Tito da Silveira
43
Professor Benedito de Paula Said Godofredo Guedes
44
Economista Roberto Carlos M. Santiago Heloisa V. dos Anjos Sarmento
45
Drª. Viviane Marques Henrique Oliva Brasil
46
Professora Eliane Maria F Ribeiro Herbert de Souza – Betinho
47
Amelina Fernandes Chaves Hermenegildo Chaves
48
Profa. Maria das Dores Antunes Câmara Hermes Augusto de Paula
49
Prof. José Ferreira da Silva Irmã Beata
50
Jornalista Délio Pinheiro Neto Jair Oliveira
51
Evany Cavalcante Brito Calábria João Alencar Athayde
52
Fotógrafa Ângela Martins Ferreira João Chaves
53
Vânia Rosália Veloso Assis Dias João Batista de Paula
54
Cláudio Ribeiro Prates João José Alves
55
Cel. Lázaro Francisco Sena João Luiz de Almeida
56
Dra. Ivana Ferrante Rebelo João Luiz Lafetá
57
VAGA João Novaes Avelins
58
Profa. Maria Ângela Figueiredo Braga João Souto
59
Jornalista Luiz Ribeiro dos Santos João Vale Maurício
60
Dr. Manoel Messias Oliveira Jorge Tadeu Guimarães
61
Jornalista Girleno Alencar Soares José Alves de Macedo
62
Profº José Geraldo de Freitas Drumond José Esteves Rodrigues
63
VAGA José Gomes Machado
64
Professora Palmyra Santos Oliveira José Gomes de Oliveira
65
Dra. Maria de Lourdes Chaves José Gonçalves de Ulhôa
66
Arqueólogo Fabiano Lopes de Paula José Lopes de Carvalho
67
Prof. Denilson Meireles José Monteiro Fonseca
68
Professora Rejane Meireles Amaral José Nunes Mourão
69
Dr. Aderbal Esteves José (Juca) Rodrigues Prates Júnior
70
Eustáquio Vicente Santos Macedo José Tomaz Oliveira
71
Dra. Edwirges Teixeira de Freitas Júlio César de Melo Franco
72
Jornalista Theodomiro Paulino Correa Lazinho Pimenta
73
Dra. Maria das Mercês Paixão Guedes Lilia Câmara
74
Professor Laurindo Mekie Pereira Luiz Milton Prates
75
Alceu Augusto de Medeiros Manoel Ambrósio
76
Vaga Manoel Esteves
77
Profª Maria Jacy de Oliveira Ribeiro Mário Ribeiro da Silveira
78
Jornalista Américo Martins Filho Mário Versiani Veloso
79
Vaga Mauro de Araújo Moreira
80
Vaga Miguel Braga
81
Prof. Juvenal Caldeira Durães Nathércio França
82
Josecé Alves dos Santos Nelson Viana
83
Daniel Oliva Tupinambá de Lélis Newton Caetano d’Angelis
84
Dr Itamaury Telles de Oliveira Newton Prates
85
Historiador Expedito Veloso Barbosa Armênio Veloso
86
Professora Zoraide Guerra David Patrício Guerra
87
Profº Arnaldo Bezerra Pedro Martins de Sant’Anna
88
João de Jesus Malveira Plínio Ribeiro dos Santos
89
Jornalista Felipe Gabrich Robson Costa
90
Folclorista Teófilo Azevedo Filho (Téo) Romeu Barcelos Costa
91
Dr Wesley Caldeira Sebastião Sobreira Carvalho
92
Professor Roberto Pinto Fonseca Sebastião Tupinambá
93
Dr Dário Teixeira Cotrim Simeão Ribeiro Pires
94
Dr Luiz Pires Filho Teófilo Ribeiro Filho
95
Profa. Marilene Veloso Tófolo Terezinha Vasquez
96
Yure Vieira Tupinambá de Lelis Mendes Tobias Leal Tupinambá
97
Prof. Leonardo Alvares da Silva Campos Urbino Vianna
98
Dra. Mara Yanmar Narciso Virgilio Abreu de Paula
99
Profa. Virgínia Abreu de Paula Waldemar Versiani dos Anjos
100
Professora Maria Clara Lage Vieira Wan-dick Dumont

Sócios Correspondentes

Jornalista Adriano Souto Belo Horizonte - MG

Prof. Alan José Alcântara Figueiredo

Macaúbas - BA

Jornalista Alberto Sena Batista

Grão Mogol - MG

Dr. André Kohene

Caetité - BA

Prof. Regente Armênio Graça Filho

Rio de Janeiro - RJ

Dr. Ático Vilas-Boas da Mota

Macaúbas - BA

Dr. Avay Miranda

Brasília - DF

Jornalista Carlos Lindemberg Spínola Castro

Belo Horizonte - MG

Escritora Carmem Netto Victória

Belo Horizonte - MG

Jornalista Cláudia Correia Costa Carvalho

Luz - MG

Jornalista Cintia Bernes

Belo Horizonte - MG

Historiadora Célia do Nascimento Coutinho

Belo Horizonte - MG

Historiador Daniel Antunes Júnior

Espinosa - MG

Historiador Dario Cardoso Vale

Belo Horizonte - MG

Dr. Dêniston Fernandes Diamantino

Januária - MG

Historiador Domingos Diniz

Pirapora - MG

Dr. Enock Sacramento

São Paulo - SP

Dr. Eustáquio Wagner Guimarães Gomes

Belo Horizonte - MG
Dr. Fernando Antônio Xavier Brandão Belo Horizonte - MG

Escritor Flávio Henrique Ferreira Pinto

Belo Horizonte - MG

Jornalista Genoveva Ruisdias

Belo Horizonte - MG
Jornalista Geraldo Henriques (Riky Terezi) New York – USA

Prof. Herbert Sardinha Pinto

Belo Horizonte - MG

Dr. Hermano Baggio

Pirapora - MG

Jornalista Jeremias Macário

Vitória da Conquista - BA

Dr. João Carlos Sobreira de Carvalho

Belo Horizonte - MG

Jornalista João Martins

Guanambi - BA

Dr. Jorge Lasmar

Belo Horizonte - MG

Dr. José Carlos Vale de Lima

Belo Horizonte - MG

Dr. José Francisco Lima Ornelas

Belo Horizonte - MG

Prof. José Eustáquio Machado Coelho

Belo Horizonte - MG

Prof. Dr. Jorge Ponciano Ribeiro

Brasília - DF

Dr. José Henrique Brandão

Bocaiuva - MG
Dr. José Walter Pires Brumado - BA

Dr. Manoel Hygino dos Santos

Belo Horizonte - MG

Profa. Dra. Maria da Consolação M. F.

Cowen London - England

Drª. Maria Estela Kubitschek Lopes

Rio de Janeiro - RJ

Profa. Maria Isabel M. Sobreira

Belo Horizonte - MG

Prof. Moisés Vieira Neto

Várzea da Palma - MG

Jornalista Paulo César Oliveira

Belo Horizonte - MG

Dr. Paulo Costa Rio

Pardo de Minas - MG

Historiador Pedro Oliveira

Várzea da Palma - MG
Profa. Regina Almeida Belo Horizonte - MG

Escritor Reynaldo Veloso Souto

Belo Horizonte - MG

Profa. Terezinha Teixeira Santos

Guanambi - BA

Prof. Wellington Caldeira Gomes

Belo Horizonte - MG

Historiador Zanoni Eustáquio Roque Neves

Belo Horizonte - MG
Historiadora Zilda de Souza Brandão (Bim) Belo Horizonte - MG

ASSOCIADOS HONORÁRIOS

Edilson Carlos Torquato
Irany Telles de Oliveira Antunes
João Carlos Rodrigues Oliveira
José Antônio Correa Mourão
Mardete Dias Silveira
Newton Carlos do Amaral Figueredo
Pedro Ribeiro Neto
Raquel Veloso de Mendonça


 


Lázaro Francisco Sena
Cadeira N. 55
Patrono: João Luiz de Almeida

APRESENTAÇÃO

Como acontece ao final de cada semestre do ano civil, estamos publicando mais uma Revista do Instituto, a 18ª em sua série, iniciada logo após a fundação do IHGMC, em 27 de dezembro de 2006.

Já na capa e orelhas desta edição, duas visualizações importantes: uma, a imagem da nova sede do Instituto, agora ocupando parte do “Sobrado de Dulce Sarmento”, hoje de propriedade da Prefeitura Municipal, com espaço cedido através da Secretaria de Cultura; a outra, uma galeria de fotos dos associados efetivos já falecidos, como forma singela, porém sincera, de relembrar e homenagear aqueles que já estiveram ao nosso lado, buscando atingir os objetivos da instituição.

Conforme já temos afirmado em outras oportunidades, a Revista do Instituto é o mais importante canal de difusão das matérias produzidas pelos associados, buscando principalmente resgatar e consolidar a memória histórica de Montes Claros e região Norte de Minas. O mais importante, para nós, é a diversidade de perspectivas do passado, considerando o grande número de companheiros que participam das publicações.


Na presente edição, foi aberto espaço para três convidados que, mesmo não sendo associados efetivos, produziram matéria de forte apelo regional: o correspondente Honorato Ribeiro dos Santos, de Carinhanha-Ba, que escreveu sobre “A Morte do Velho Chico”, Maria das Graças Patrocínio Oliveira que escreveu o texto “Ela nasceu para brilhar” e o cidadão José Prates, de Montes Claros, hoje residindo no Rio de Janeiro, que discorreu sobre a origem do Café Galo, tradicional ponto de encontro de montes-clarenses aqui radicados e referência para os visitantes de nossa cidade. Quanto aos demais artigos, difícil é não recomendar a leitura de algum deles, cujos autores já são consagrados aqui e alhures, pela segurança e clarividência com que discorrem sobre os assuntos abordados. A surpresa agradável é o surgimento de novos escritores, como os confrades Yúry Tupinambá de Lélis e Daniel Oliva de Lélis, que relataram a incrível saga do Capitão Camilo Cândido de Lélis, certamente um bravo e nobre antepassado de sua família. É preciso ler, para conhecer. Façam, portanto, uma boa e proveitosa leitura.



 


Clarice Sarmento
Cadeira N. 31
Patrono: Dulce Sarmento

Tradição e modernidade
nas Festas de Agosto de
Montes Claros

As festas religiosas apresentam um aspecto mais ou menos uniforme em todo o país. É a maior expressão do catolicismo popular e se caracterizam pela homenagem a um santo padroeiro ou da devoção da comunidade; novena, barraquinhas leilões, procissões e finca do mastro com bandeira trazendo a estampa do santo. Em algumas comunidades, até a derrubada e carregamento do pau do mastro são acompanhados de devotos que cantam louvores e dão vivas ao santo.

Das Festas de Agosto em Montes Claros, fazem parte atualmente a festa de N. Senhora do Rosário, S. Benedito e do Divino Espírito Santo. São agrupadas em três dias seguidos (17-18-19) do mês de agosto, com ligeira variação para que a última etapa, a procissão do Divino, seja realizada no domingo, após as três festas.

Mas nem sempre foram desta maneira. Segundo meu pai, Adail Sarmento, que aqui viveu no sec. passado (08/1901 a 12/1988), a primeira festa era da padroeira N. Senhora da Conceição, realizada na Igreja Matriz. Em seguida, a festa de N. Senhora e S. Benedito,acontecia na igrejinha do Rosário. A do Divino era novamente realizada na Matriz e, até pouco tempo, por volta do ano 2000, era mantida neste local. Hoje, as festas não são mais precedidas de novena, barraquinhas e leilões e tem seu ponto alto no desfile dos cortejos de Reinados e Império com sua corte de princesas, damas e pajens em desfile diurno, acompanhados dos ternos de catopés, Marujos e Caboclinhos com seus cantos, instrumentos e danças. Na noite anterior há também um cortejo, que acompanha a bandeira e os mordomos até a igreja para finca do mastro, com foguetório e vivas.

Catopês-Sua origem remonta ao Sec. XVlll, das festas de Chico Rei em Vila Rica, organizadas pelas irmandades, com seus Congados e danças de origem africanos.

Marujos- De origem portuguesa, fazem referências às aventuras náuticas da epopeia da Nau Catarineta. Ritmos de fandango, com pandeiros e rebeca.

Caboclinhos- Os bailados indígenas que, muitas vezes, eram apresentados nos festejos religiosos pelos jesuítas com fins de catequese, passaram a integrar as festas religiosas.

Na manhã da festa, os ternos vão até a casa do festeiro do dia que, como os mordomos do mastro, foi escolhido por sorteio realizado no ano anterior entre os que se candidataram. Os festeiros são os pais das crianças que se apresentam como reis, rainhas , Imperador e Imperatriz. O reinado e o império desfilam sob um pálio, precedido por grande quantidade de príncipes e princesas que representam a corte. O pálio pode vir, ou não, dentro de um quadro de varas enfeitadas carregadas por pajens ou damas de honra. Os trajes ostentam as cores dos santos: azul e branco para N. Senhora do Rosário, rosa para S. Benedito e vermelho para o Divino E. Santo.

Saindo da casa do festeiro ou outro lugar mais central (atualmente
optaram pela praça em frente ao Automóvel Clube), o cortejo desfila pelas ruas centrais com destino a igreja do Rosário, reconstruída em forma de uma barca, como a “barca nova” da marujada - Os marujos se deslocavam, em tempos passados, dentro de uma armação retangular de pano branco, sem fundo ou teto e , dentro deste quadro, dançavam até a igreja.

Desde 23 de maio de 1839, quando Marcelino Alves pediu licença à Câmara Municipal para recolher esmolas para realizar estes festejos pela primeira vez (Hermes de Paula), muitas mudanças ocorreram, quer nos trajes, nos cantos e coreografia - O Folclore é dinâmico, sofre influências, se moderniza e se modifica, nem sempre por iniciativa do grupo e vai se adaptando a circunstâncias mais favoráveis e assim criando uma nova realidade.

Vejamos algumas destas modificações:

- A banda de música, que outrora só acompanhava o Império do Divino com dobrados ( havia até um dobrado específico para tal ocasião, segundo o músico clarinetista da Euterpe Adail Sarmento), hoje acompanha todos os cortejos e toca todo tipo de música popular e popularesca.

- Os Marujos –Hoje só um grupo preservou os tradicionais uniformes azuis e vermelhos de cetim e os lindos chapéus enfeitados de aljôfares e espelhos. Mas as máscaras de tela de arame pintadas há muito desapareceram. Recentemente, o grupo de Miguel Marujo apareceu vestido de roupa branca e casquete com âncora bordada, provavelmente influenciado por grupos de outras cidades que aqui se apresentaram no festival folclórico.

- Os caboclinhos- Homens e meninos, numa profusão de penas, pernas e saiotes enfeitados, dorso nu pintado de vermelho e preto, eram lindos com seus passinhos miúdos de dança ao ritmo das batidas das flechas. A imponência dos capacetes de penas rivalizar-se-ia hoje com os maravilhosos capacetes de pena de pavão do terno de catopês de Mestre Zanza. Onde a altivez e elegância da caboclada de Leonel Beirão ou do grupo de seu Carrim
da rua Melo Viana? Pena que até com camisas de malha vermelha estampadas com propaganda já se apresentaram. Não foi uma boa modernização!

Os Catopês. No passado usavam ternos brancos de brim, os mesmos instrumentos de hoje. Dançavam de pés descalços e os capacetes eram bem mais simples. Estes sim, sob a tutela de Zanza, estão bem mais apoteóticos (tirando a invenção das camisas de lamê dourado, prateado e outros brilhos de influência carnavalesca).

Devo, entretanto, registrar algumas críticas não só minhas, mas de muitos que, como eu, são montes-clarenses que amam sua terra:

Torna-se necessária a revitalização dos cantos. Não se justifica um grupo cantar repertório do outro, apresentando números que não fazem parte de seu cancioneiro. Dr. Hermes deixou, em partituras, o registro destes cantos especificando cada repertório. Os mais velhos deveriam recordá-los e ensiná-los aos mais jovens.

A cada ano os participantes se tornam mais numerosos, os trajes mais ricos e adornados. Mas não se justifica que o orgulho dos pais em exibir seus parentes os façam intrometer-se dentro do cortejo. Por que não se postam discretamente ao lado, acompanhando seus filhos? Se querem tanto fazer parte e desfilar, por que não se vestem também “a caráter”? Afinal, nas cortes tem rainha- mãe, tias e avós, pajens e cavalheiros da nobreza. Uma corte completa não faria mal ao desfile. Fica a sugestão....

Outra coisa triste é o emporcalhamento das ruas: copos descartáveis, papéis diversos, garrafas pet. Nós, brasileiros e, principalmente nós, montes-clarenses, possuímos dois grandes defeitos: um deles é a falta de cuidado com as vias e logradores públicos; o outro é o completo desprezo pelos horários. Senão vejamos: O horário do início do desfile é 10h da manhã. Ao meio dia, sol “de rachar”, a banda ( que tem disciplina e respeita horários) as criancinhas e pais cansados, com fome e sede, esperam de pé, pelo rei, rainha ou até por um dos ternos que ainda não chegou...

Vamos tentar ser pontual, gente! Afinal esta festa é a coisa mais
bonita que acontece em nossa cidade e os que fazem parte dela só
merecem ser incentivados, elogiados e aplaudidos. Estejamos todos
lá, prestigiando orgulhosos o nosso folclore e nossa querida terra!

__________________________________________________
Atualmente o brilho destas festas atesta o aumento da vitalidade e grandiosidade que adquirem a cada ano. Já se vai longe o tempo em que ficaram esquecidas e, não fora a interferência e incentivo de Hermes de Paula por ocasião das festas do centenário da cidade, teriam o mesmo fim que as cavalhadas e o Bumba-meu-boi de outrora.



Dário Teixeira Cotrim
Cadeira N. 93
Patrono: Simeão Ribeiro Pires

FREI CLEMENTE DE ADORNO

1 - O MISSIONÁRIO DE DEUS

No estirão da estrada de Rio Pardo de Minas até a estância hidromineral de Água Quente, ou Montezuma, logo depois de receber, pelo lado esquerdo, a estrada que vem da aconchegante cidade de Santo Antônio do Retiro, encontramos o povoado de São Bartolomeu.

Todavia, já nessa época do atentado contra o frei Clemente, fato que tanto enegreceu as páginas de nossa história, somente existia o sítio São Bartolomeu, pois o povoado só veio despontar muito tempo depois.

Hoje este povoado já conta com dezenas de casas, uma escola, um posto telefônico e comércio em franco desenvolvimento. Na pequena ermida existente ali encontramos um crucifixo deixado pelo frei Clemente, quando do acontecimento funesto da sua última pregação na vila da Boa Vista do Tremedal. Infelizmente, por assim desconhecer o valor histórico daquele crucifixo, alguém, inadvertidamente, deixou que ele fosse pintado com tinta óleo, descaracterizando-o por completo. Entretanto não se pode deixar de reconhecer a existência de determinado apreço que os moradores têm pela sua história tão comovente e bonita.

Como já afirmamos acima, a última missa celebrada pelo frei Clemente de Adorno ocorreu na vila de Boa Vista do Tremedal (hoje
a cidade de Monte Azul), terra de dona Maria Rosária.

E quem foi frei Clemente de Adorno?

Ele foi um fervoroso missionário, mais do que isso, um apóstolo de Deus!

Frei Clemente veio para o Brasil através da Sagrada Congregação de Propaganda da Fé, procedente da Província de Piemonte, na Itália e aqui se aportou em novembro de 1778. Quando pisou nas areias praianas da cidade de São Salvador, com ele, outros companheiros que, também, desarrumaram os seus farnéis contendo muitas esperanças e muita fé. Os objetivos deles eram catequizar os índios e realizar as santas missões nas aldeias e vilas. Em todos os recônditos sertões, ignotos e bravios deste imenso e querido Brasil, encontramos os bons frutos dos capuchinhos. A estas obras de caridade, zelo e pregação dos missionários nas vilas e fazendas de gado, na maior parte delas foram deixadas para os de hoje alguns manuscritos históricos, lendas e lições de fé.

Primeiramente, ocupou-se das missões no Norte de Minas, com extensão a várias outras localidades da província baiana. De modo muito especial, preocupou-se com a catequese dos índios residentes na redução de Pacatuba, uma pequena aldeia da província sergipana, e depois com os índios das margens do alto Rio Pardo. Era esta região do alto Rio Pardo, parte sul da província baiana.

Os índios compreendiam cabalmente a diferença de tratamento e sabiam distinguir entre a violência e o bem fazer. Porque os homens, até quando são índios, respondem à violência geralmente com a violência e o bem fazer com a gratidão à colaboração fica lançado à ponte. Na sua rudeza, os índios acharam a frase gráfica do seu próprio sentimento. Quando falavam dos Portugueses, chamavam-lhes homens; quando falavam dos Missionários, homens bons”.


Foi o homem bom, frei Clemente de Adorno, durante treze anos, presença constante na paroquia de Nossa Senhora da Conceição, do arraial de Rio Pardo, isso desde quando aqui esteve pela primeira
vez em 1793.

Eleito o décimo quarto prefeito da Missão Capuchinho do Hospício (convento) de Nossa Senhora da Piedade de Salvador/ Bahia, para o período de 1795 a 1802, não concluiu o período. Frei Clemente de Adorno renunciou ao posto em 1799 e voltou para os seus índios do alto Rio Pardo, pregando no arraial do mesmo nome, desta vez, a Missão de 1803. Naquela época era vigário da Paróquia de Nossa Senhora da Conceição, o ínclito padre Manuel Pereira Ribeiro no período de 1791/1808, de nacionalidade portuguesa, e muito amigo do frei capuchinho.

Apesar da dedicação à catequese e do apego à causa indígena do Alto Rio Pardo, Frei Clemente de Adorno ainda encontrou tempo para missionar numa grande parte do Norte de Minas e Bahia. Em Minas Gerais, deixou-nos lembranças de sua missão em Barra do Guaicuí, Vila de Porteiras, Vila do Porto do Salgado (Januária) vila do Fanado (Minas Novas), sítio da Boa Vista do Tremedal (Monte Azul), vila dos Morrinhos (Mathias Cardoso).

Na Bahia, passou frei Clemente pelas vilas da Barra do Rio Carinhanha (Carinhanha), de Malhada do Porto da Santa Cruz, quilombo do Parateca, fazenda Santo Antônio do Urubu de Cima (Paratinga), povoado do Bom Jesus da Lapa, vila do Príncipe e Santana de Caetité, arraial do Santo Antônio da Barra (Condeúba), fazenda Brejo Seco ou vila do Bom Jesus dos Meiras (Brumado) e a vila de Nossa Senhora da Boa Viagem das Almas (Jacaraci).

Sobre a sua passagem por Bom Jesus da Lapa, diz a Lenda da Serpente “que um grande missionário, Frei Clemente, que pregou na Lapa como também na Barra e outros lugares do Rio São Francisco, no fim do século dezoito, aconselhou que todos rezassem o oficio de Nossa Senhora porque cada vez cairia uma pena da serpente e, caídas todos, não mais poderia voar e morreria”. O belicoso frei não só gostava de dar conselho como também de rogar praga em situações delicadas.

Certa ocasião, em visita às recolhidas da casa de oração do Vale das Lágrimas, a umas quatro léguas ao nordeste de Minas Novas, em decorrência da miséria que elas viviam, frei Clemente promoveu a sua transferência para a Santa Cruz da Chapada, onde lhes construíram, às pressas, um belíssimo convento. “Todo o seu cuidado é encaminhar almas ao céu não só na cidade, mas nos sertões, onde tem a seu cargo muitas missões nas aldeias dos gentios, constantes nos sagrados ritos e preceitos da Santa Igreja Católica”.


2 – NA TERRA DE MARIA ROSÁRIA

Quem era essa Maria Rosária da Rocha Pereira?

Era a baiana Maria Rosária a proprietária do Sítio da Boa Vista do Tremedal, onde é hoje a cidade de Monte Azul.

Por certo uma infeliz, a quem, como se provou mais tarde pelo exame de consciência do povo sertanejo, a alienação mental acendera a cobiça e a vingança mortal contra o piedoso missionário da Deus.

Diz-se, se ainda a proprietária do Sítio da Boa Vista do Tremedal e uma aparentada do Padre Francisco Pereira de Barros, o legendário “Pereirinha”, fundador da Vila de Nossa Senhora Mãe de Deus e dos Homens de Montes Alto, no estado da Bahia.

A mulata Maria Rosária da Rocha Pereira era procedente do Boqueirão das Parreiras (atual cidade de Sebastião Laranjeiras / Bahia) Na colocação do historiador Simeão Ribeiro Pires, ela era uma negra de maus costumes e de gênio muito forte, vivia amancebada com o português Pompéu e gozava de grande influência nos meios políticos, não só no Norte de Minas como também na cidade de São Salvador / Bahia.

"Aconteceu que essa mulher pretendeu um dia batizar uma criança. O encarregado dos serviços em toda aquela vasta região era frei Clemente de Adorno, santo homem que exercia com zelo fora do comum aquele mister. Não consentiu que se fizesse o batizado. E mais, do alto do púlpito, num domingo, na hora da missa, verberou o procedimento daquela mulher que vivia em constante pecado mortal, para escândalo daquela gente boa do sertão"


Já muito velho e cansado das fadigas apostólicas, na Missão de 1806, que ocorreu no Sítio da Boa Vista do Tremedal (hoje a cidade
de Montes Azul), no então arraial pertencente ao município de Rio Pardo (de Minas), frei Clemente de Adorno censurou severamente Maria Rosária "dos torpes e maus costumes da época e notavelmente da terra devassa que desbravava, semeando nela a palavra divina"”.

Ora, com certo desdém na fala eloquente e estigmatizada do missionário, palavras estas dirigidas diretamente à sua pessoa, a cuja cabeça assentou-lhes tantas e tantas carapuças, Maria Rosária ficou ressentida, profundamente, dos salutares conselhos do frade.

"Acabada a missão [no sítio da Boa Vista do Tremedal, atual cidade de Monte Azul], o monge formosíssimo, encaminhou-se para o arraial de Rio Pardo, acompanhado de dezenas de pessoas solícitas, que não cansavam de lhe ouvir a palavra de Deus, entre as quais dono Maria Rosária...”"


3 – A MORTE DO FREI CLEMENTE

Quando ele dizia mais uma missa, lhe envenenaram o sagrado vinho.

A perversa Maria Rosária, para vingar-se terrível e impenetravelmente do missionário que a magoara tão profundamente no amor próprio, determinou que um de seus escravos lhe envenenasse o vinha da Santa Missa. Assim, sendo, ainda no Sítio da Boa Vista do Tremedal, onde a caravana já tinha pernoitado e se preparava para seguir viagem com destino a Rio Pardo (de Minas), no raiar daquele infausto dia, frei Clemente de Adorno teve que dizer missa, assim como fazia de costume...

...e levando o cálice consagrado aos lábios, percebeu que o seu conteúdo estava envenenado, avisou ao povo que ia morrer...” e bebeu. “Morro envenenado, mas guardem as minhas palavras: um dia verá em que Tremedal será varrido por hórrida tempestade e transformar-se-á numa imensa lagoa e nada ficará de pé, nem mesmo esta Igreja.

Outras pessoas que estavam presentes no local chegaram a afirmar que no esto da mais incedida comoção religiosa, o valoroso frei Clemente de Adorno, soberbo e extraordinário, verberou...

...vou morrer! Mas, ai do vil envenenador e da terra que habita...

Encerrada a sua missão no Sítio Boa Vista do Tremedal, era hora de seguir viagem. Depois de cinco dias de longa caminhada pelo cerrado, o moribundo frei ainda alimentava o desejo de dizer missa
no sítio São Bartolomeu.

A princípio, os fiéis quiseram transportar o frei, enfermo, para o arraial de Rio Pardo (de Minas). Mas, chegando ao sítio São Bartolomeu agravou-se muito o seu estado de saúde. Era necessária uma parada naquela localidade para que o enfermo recuperasse as suas forças. Neste mesmo dia, frei Clemente tendo a consciência de que sua vida escaparia, doou para o oratório daquele casarão o crucifixo do Senhor do Bonfim.

E, na noite daquele mesmo dia, o bondoso frei Clemente adormeceu
para nunca mais despertar.

Na manhã seguinte, a multidão lacrimosa, em repetitivos ladários, transportou o corpo do Frei numa rede até o arraial do Rio Pardo (de Minas), onde seria sepultado no interior da Igreja Matriz de Nossa Senhora da Conceição.

No ano de 1923, o insigne padre Horácio Giraldi mandou colocar uma pedra onde o egrégio Frei Clemente de Adorno fora sepultado.

Desapareceu frei Clemente de Adorno. Não desapareceu, porém, a sua memória. Porque, além da sua função especifica de catequizar os índios foi também conselheiro e amigo de todos. Um homem santo. Quanto de lutas, de todo o gênero, teve de experimentar para conseguir o seu intento, só Deus é testemunha.

Para melhor ilustrar e também enriquecer este nosso trabalho, transcrevemos para cá, na integra, o admirável registro que o Dr. Tranquilino Leovigildo Torres produziu sobre a origem da apostolar figura do ínclito frei Clemente de Adorno. Vejamos:

Em 1806 missionou, o Reverendo capuchinho Frei Clemente... cujo sobrenome ficou ignorado. Faleceu na cidade de Rio Pardo, Minas Gerais, onde foi sepultado, havendo ainda hoje grande devoção e romaria à sua sepultura pela sua grande piedade. Nessa missão de 1806, plantou ele o cruzeiro em frente à Igreja, o qual na tarde de 15 de novembro de 1876 foi derrubado por um tufão. Apesar de ignorar hoje a população o sobrenome desse monge, completo fanatismo existiu pela sua memória e alguns objetos de seu domínio. O catre em que morreu, do mesmo modo que o cruzeiro que caiu com o tufão em 1876, foi desfeito aos pedaços como Santo Lenho e são conservados como preciosas relíquias” (Memória Descritiva do Município de Condeúba – Tranquilino Leovigildo Torres – página 64. 1924).

Tratando-se dos nomes próprios dos padres e dos missionários, algumas ordens religiosas acrescentavam-lhes o topônimo do lugar de onde eles teriam vindo. Adorno, porém, é o nome de uma ilustre família plebeia de Gênova, na Itália, não sendo, portanto, nome de lugar.

Não é possível dizer tudo a respeito desse santo homem por falta de outros documentos. Os livros pesquisados, depois de dissecadas
todas as informações neles contidas, resumiu-se nesta pequena coleta que indicamos às escolas. Nossa intenção, do ponto de vista didático, é levar para os alunos, à luz do conhecimento, a emocionante história do frei Clemente, com isso, não deixar que o tempo apague da nossa memória a grande obra religiosa realizada por ele. Será ainda modesta a nossa contribuição histórica neste capítulo. Que é a de colocar a história do frei Clemente de Adorno ao alcance de todos os que venham a se interessar por ela.


Jazigo do Frei Clemente na Igreja de Nossa Senhora da Conceição,
em Rio Pardo de Minas


Igreja de Nossa Senhora da Conceição de Rio Pardo de Minas, onde está sepultado o Frei Clemente de Adorno



Dóris Araújo
Cadeira N. 5
Patrono: Antônio Ferreira de Oliveira

Ao Poeta Prejeiro
com Carinho


É manhã de terça- feira, estou sentada à mesa da biblioteca da escola onde trabalho, sobre a mesa, repousa uma pilha de livros para serem restaurados (pequenos reparos). Uma capa soltando- se aqui, uma lombada abrindo-se acolá; nada que não possa ser resolvido com um pouco de cola e a mesma dose de paciência e habilidade. Os outros, os mais danificados, foram separados. Serão submetidos a uma avaliação mais criteriosa.

Cada livro que passa pelas minhas mãos, recebe tratamento personalizado, atenção cuidadosa. Pego, viro, reviro, abro, folheio, fecho, apalpo, ausculto. . . Atendimento vip para a grande personalidade: o livro. Sempre.

Entre um atendimento e outro, eis que surge um cliente mais que especial, justamente porque não parecia haver razão real para ele estar ali. Definitivamente, aquele livro não precisava ser restaurado, ao contrário, estava era muito inteiro, muito bem conservado mesmo, apesar do seu ano de publicação, 1978. Livro de capa simples e bonita, branca e verde, as cores oficiais da Academia, o título em marrom: “Antologia da Academia Montes-clarense de Letras”, Editora Comunicação. Toquei-o com reverência. Virei, revirei e o abri, com todo carinho, lembrando-me de recorrer logo ao seu índice, o que fiz com certa impaciência. Deslizei meu indicador ao longo de sua página, virei a folha, e, para meu encantamento, lá estava quem eu tanto procurava: Olyntho da Silveira, na página 237.

Olyntho da Silveira nasceu aos 25-08-1909, em Brejo das Almas, atualmente Francisco Sá. Filho de Jacinto Alves da Silveira e Maria Luísa de Araújo Silveira. Foi, entre tantas outras coisas, fazendeiro, político, comerciante. Mas, o mais importante é que foi um Grande Escritor, um Grande Poeta, um dos nossos melhores sonetistas (segundo o confrade Wanderlino Arruda), um Grande Homem, enfim.

A seguir, com o coração desgovernado, leio, de sua autoria, A GRATIDÃO DUM MATEIRO, dedicada à Yvonne Silveira, sua amada esposa. A emoção cavalga sem rédeas no meu peito. Nessa crônica, o escritor narra, de maneira belíssima, a estória de um legítimo veado mateiro que tornara seu animal de estimação, ou ainda mais: um amigo grato pelo carinho e atenção recebidos.

A prosa de Olyntho é admirável, escorreita, enxuta, cristalina; tem gosto de ternura, cheiro de poesia.

Prossigo viajando pelo universo mágico de sua escrita. Deparome com a estória da SEREIA DO POÇO-AZUL, que me enfeitiça. Agora, a exemplo do personagem Faustino, trago também uma sereia dentro dos meus olhos.

Viro a página, o poema LINGUAGEM desperta-me a atenção, nele, o Poeta diz à sua amada:

Vem!
Olha-me nos olhos tristes
Faze deles o teu espelho
Viste-te?
Sim.
Como não hás de ver-te,
Se vives sempre dentro deles?

Magnífico poema. O bardo continua expressando toda sua dmiração por sua musa:

Vem!
Aproxima o teu ouvido
Da minha boca e escuta
Ouviste-a?
Sim.
Como não a ouvires,
Se somente o teu nome
Ela sabe dizer?
(....)

Terminada a leitura, fechado o livro, tenho a viva impressão de escutar a voz grave e sonora do poeta, dizendo: “Yvonne, minha querida, hei de amar- te para sempre.

Sim, Mestra, Amiga e Confreira, Yvonne Silveira, o seu Eleito, o Poeta Olyntho Alves da Silveira, estará sempre gritando o seu nome, pois, como ele próprio afirmou em seus versos – somente o seu nome sua boca sabe dizer.

Hoje, fisicamente, ele não está mais aqui entre nós, tornouse um encantado, metamorfoseou-se, luarizou-se, transcendeu, virou estrela. No entanto, o seu rastro luminoso permanecerá indelével em suas obras, em seus livros, em seus versos, em sua poesia . . . Seu pensamento, tal qual chuva de março, incidirá suave sobre nós, nos refrescando o corpo e a alma, nos fazendo reconhecer que a essência sobrevive ao corpo físico; que, além de matéria, somos luz.

O Poeta brejeiro, Olyntho da Silveira, despiu-se da matéria aos 99 anos, 04 meses e 27 dias de vida terrena. Tornou-se imponderável aos nossos olhos físicos, porém, o nosso coração o sentirá sempre presente. Em todo e qualquer lugar. Onde quer que haja um sopro de poesia.


Dóris Araújo e Olynton Silveira



Felicidade Patrocínio
Cadeira N. 20
Patrono: Camilo Prates

Monumento histórico
literário da saúde de Minas

Após ler atentamente os volumes sobre a Santa Casa de Belo Horizonte editados por Manoel Hygino, chego à conclusão de que, com base em apurada pesquisa e através de uma literatura refinada, foi erguido um verdadeiro monumento à história da medicina em Minas Gerais. Com eles o autor mais uma vez se confirma como o maior escritor montes-clarense da atualidade ele que por longa data foi também redator dos mais importantes jornais
de Minas.

Para felicidade de muitos, esse trabalhador e cultor das letras nunca parou. Hoje, mesmo com mais de 80 anos de idade, Manoel Hygino exerce o cargo de ouvidor-geral da mesma Santa Casa de Belo Horizonte, onde bate o ponto diariamente. Quem o procura ali logo vê o carinho de que é cercado e o quanto é querido pelos dirigentes e funcionários daquele formidável complexo hospitalar, gigante no tamanho e na ação que presta em prol da vida.

De maneira inspirada e inteligente, o escritor, que tanto enobrece o nome da sua “Cidade da Arte e da Cultura”, contemplou cada especialidade médica que funciona no complexo daquela Santa Casa, a qual entrou em operação nos primeiros anos do século XX. Num trabalho que exige competência de pesquisador, visão ampla e ao mesmo tempo focal em pontos significativos, Hygino foi compilando fatos e versões, selecionando informações, completando e renovando antigos conteúdos, além de criar textos inéditos para as novas publicações e reedições. O resultado, eu tenho nas mãos, é primoroso, diria até sofisticado, agradando pela estética delineada já à primeira vista.

No entanto, o prazer maior vem quando se começa o folheio das páginas. Fotos interessantes, registros visuais importantes das fases e fatos da história da respeitada instituição. O tamanho e tipo da letra e a espaçosa diagramação oferecem conforto ao leitor, assim como tempo para internalização do conteúdo, o qual é simplesmente fantástico. Na falta aqui de espaço para abarcar todos os volumes que tratam das diferentes áreas médicas, destacarei apenas três volumes os quais, a despeito de meu parco conhecimento em medicina, me encantaram. Aliás, por falar em encantamento, não duvido que tenha sido justamente esse o intuito do autor: encantar e despertar o interesse do leitor em geral.

Desses três volumes, o primeiro que li foi “Caranguejo Sinistro, que enfoca a luta contra o câncer no Brasil desde os seus primórdios. Impressionaram-me os avanços obtidos pela instituição nesse campo, num tempo de recursos escassos, fazendo de Belo Horizonte e Minas Gerais vanguarda no tratamento do câncer. Parte importante desses avanços foi a instalação na Santa Casa, em 1926, do primeiro aparelho de radioterapia do Brasil, vindo da Europa. No dia da inauguração, lá estava a célebre cientista Madame Curie, uma das inventoras do mecanismo, que viera da França especialmente para instruir quanto ao seu manuseio.

O sonho da existência de uma Santa Casa de Misericórdia em Belo Horizonte é anterior ao próprio nascimento da cidade. Surgiu, segundo se pode ler em“Santa Casa de Belo Horizonte:uma história de amor à vida”,no século XIX, ainda no Curral Del Rey, paralelo aos planos de implantação da nova capital. Pois aquele sonho ao se concretizar se tornou a salvação de mineiros de todos os recantos do estado, que para lá desde sempre acorreram, vítimas de todo tipo de enfermidade. Sendo verdadeiramente uma casa de misericórdia, a instituição atendia a todos sem necessidade de pagamentos. De acordo com as passagens narradas, acrescentavam-se atos espontâneos de caridade, abnegação e amor ao próximo. No que diz respeito aos médicos, o respeito, o interessee a responsabilidade que demonstravam pelos pacientes faziam deles heróis amados. Então abundavam as vocações genuínas e a medicina visava mais à salvação da vida que ao lucro. E é assim que somos levados pelo autor a reverenciar figuras que marcaram época, a exemplo do Dr. Hugo Werneck, que se tornou efetivamente o primeiro ginecologista de Belo Horizonte.

O terceiro e último volume que aqui destaco, Tempo de nascer, está em sua segunda edição, tendo a mesma sido publicada pela Santa Casa em comemoração ao centenário da Maternidade Hilda Brandão, após ser revista e ampliada por Manoel Hygino. Ao lê-lo, confesso que fiquei emocionada, além de impressionada com a erudição do autor. Quando eu já me daria por satisfeita em conhecer a bonita história de um hospital, acabei também conhecendo a história do parto, do nascimento humano em geral e mais especificamente no Brasil. E isto é muito emocionante, pois essa história muitas vezes tem lances dramáticos. Eu como mulher e mãe, tendo já parido três vezes, percebo a importância deste relato. Neste aspecto, o autor apresenta informações contundentes, detalhes significativos. Percebo então que a construção deste monumento ao AMOR humano, a Maternidade Hilda Brandão da Santa Casa de BH, foi uma odisseia em prol da vida. De lá se irradiou para todo o estado, paralelo à evolução médica, a esperança em tempos melhores em matéria de saúde e longevidade. Foi lá que se executou a primeira cesariana no Brasil. Foi lá que, pioneiramente, a obstetrícia brasileira tornou-se um saber mais qualificado, exigindo a presença do médico no momento do parto.

Desde então os elevados índices de mortalidade materna e infantil de outrora só fizeram cair, com as incertezas que cercavam o parto dando lugar a um maior conforto e segurança. Descubro, enfim, que a mulher brasileira, não somente a mineira, tem muito a agradecer a esta maternidade.A Santa Casa motivou e foi responsável pela criação da primeira Faculdade de Ciências Médicas de BH, e era nela que os estudantes de medicina estagiavam, antes de ganharem o mundo. Embora não possuísse uma roda de enjeitados, era (é) para lá que os recém-nascidos abandonados eram levados. Os que não se criavam lá mesmo, eram encaminhados para boas famílias.

Presentes na coleção, são numerosos os nomes fundantes da história desta importante instituição benemérita. Escolho citar dois, um dos quais já por mim mencionado, o Dr. Hugo Werneck, primeiro diretor clínico da Santa Casa, a partir de 1908. Uma conduta e condição que estabeleceu para si mesmo na Santa Casa foi a de não receber qualquer remuneração pelo seu trabalho ali. Dr. Werneck criou a primeira enfermaria destinada somente a ginecologia no Brasil e foi um dos fundadores da Faculdade de Medicina (hoje UFMG). Um herói que dirigiu um olhar amoroso sobre a mulher quando esta ainda vivia submersa numa condição inferior.

A segunda personalidade é aquela que empresta o seu nome à Maternidade, Hilda Brandão, esposa de Bueno Brandão, que foi presidente do Estado de Minas. Seu espírito humanitário levou-a a fundar e cuidar da Associação Auxiliadora à Maternidade, que, além
de prestar assistência gratuita às parturientes, foi responsável pelo trabalho de angariação de donativos e subvenções oficiais para a construção da Maternidade.

Muito mais poderia ser dito com base nessas leituras enriquecedoras, as quais recomendo a todos, em especial aos estudantes mineiros de medicina.

Em justiça ao autor, finalizo relembrando a nossa poderosa ex -presidente da Academia Montesclarense de Letras, D. Yvone de Oliveira Silveira, que do alto da sua inteligência e preparo sempre dizia que Manoel Hygino, além de ser o maior escritor atual de Montes Claros, tem cacife para a Academia Brasileira de Letras, onde já envergaram o fardão dois montes-clarenses, Cyro dos Anjos e o inesquecível Darcy Ribeiro.



Ivana Ferrante Rebello
Cadeira N. 56
Patrono: João Luiz Machado Lafetá

CORDÉIS, CORDELISTAS
E MINEIRIDADES

Foi brejo dos curiós,
E da alma enflorada.
Cheiro de água de chuva,
Molhando toda estrada.
Da poeira bem distante,
Do vaqueiro e do berrante,
Conduzindo uma boiada...
(Josecé Santos)

Os versos em epígrafe abrem o cordel de Josecé Santos, intitulado Brejo dos Versos em Alma. Como anuncia o título, o folheto apresenta ao leitor, em estrofes de sete versos e de sete sílabas poéticas, a cidade norte-mineira de Francisco Sá, antigamente denominada Brejo das Almas, e nome por que até hoje os sertanejos a chamam, num sinal de resistência às mudanças e de inconteste afetividade.

Em estilo ágil e espontâneo, em que transparece o caráter popular
do texto, vê-se que o cordelista vai enumerando caracteres da
cidade, com seus pouco mais de 22.000 habitantes; caracteres que vão desde os elementos que compõem sua feição um tanto rural, elogios a alguns habitantes da localidade e a narração de alguns casos pitorescos. Entre estes se destaca o de um senhor conhecido como Lopes Sebastião que, cansado da vida, varre um lugarzinho para si debaixo da árvore e ali fica deitado, esperando a morte. Antes, adverte a filha que, se alguém perguntar o que houve, que respondesse: morreu, “porque precisava/ ninguém tem nada com isso/ nunca me pegou feitiço”1. Mas como lembra o cordelista, a morte não veio buscá-lo, e parece que ele lá está, até hoje, esperando por ela, debaixo da árvore. O tom, que parece caracterizar quase todo cordel, é o de melancólica alegria.

Em Ave Palavra, livro de publicação póstuma, há um ensaio intitulado “Minas Gerais”, no qual Guimarães Rosa apresenta oito regiões culturais que compõem a multiplicidade do estado em que nasceu. É nesse ensaio que se encontra a máxima, muito repetida e popularizada: “Minas Gerais são muitas ou pelo menos várias”.2 O escritor apresenta, no texto, as muitas Minas Gerais que compõem o estado: a Minas Antiga, situada na Zona Mineralógica, tradicional, geratriz, “a de montes de ferro, chão de ferro, água que mancha de ferrugem e rubro a lama e as pedras dos córregos que dão ainda mais lembrança da formosa mulher subterrânea que era a Mãe do Ouro”3. Aponta, a seguir, a Minas da Mata, “cismontana, molhada ainda de marinhos ventos, agrícola ou madeireira” a Minas do Sul, “cafeeiro, assentado em terra roxa”, a Minas do Triângulo, “saliente avançado, reforte, franco” a Minas do Oeste, “calado e curto nos modos, mas fazendeiro e político” a Minas do Centro “corográfico, do vale do
Rio das Velhas, calcário, ameno, claro” a Minas do Noroeste, dos
chapadões, dos campos-gerais que se emendam com os de Goiás e da Bahia esquerda e vão até ao Piauí e ao Maranhão ondeantes” e, ainda, a Minas do Norte, “sertanejo, quente, pastoril, um tanto baiano em

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1 - SANTOS, s/d, p. 13.
2 - ROSA, 2001, p. 339.
3 - ROSA, 2001, p. 339.

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trechos, ora nordestino na intratabilidade da caatinga, e recebendo em si o Polígono das Secas.”4

A partir das diferenciações, Guimarães Rosa elabora uma espécie de tratado sobre a mineiridade e o ser mineiro, encerrando o seu texto com um inconteste testemunho de amor à terra natal, no qual sujeito e lugar fundem-se numa mesma identificação: “Minas sem mar, Minas em mim: Minas comigo, Minas.”5 O ensaio do criador de Diadorim coloca em cena a multiplicidade do estado mineiro, sobressaltando as características que marcam tais diferenciações, que vão desde a formação e o tipo de colonização da região até a vocação econômica e política peculiar de cada lugar. No entanto, somente para a “Minas do Norte” há o reconhecimento de uma identidade mestiça e fragmentada, “um tanto baiano” ou nordestino, conforme as palavras de Guimarães Rosa.

João Batista Almeida Costa, em sua tese de doutoramento, Mineiros e Baianeiros: Englobamento, Exclusão e Resistência6, observa que Minas Gerais traz, no próprio nome, uma dualidade explícita. Ao analisar as muitas territorialidades mineiras, Costa conclui que a Zona da Mata, o Triângulo, o Sul e Oeste mineiro são um desdobramento da Minas Geratriz, originada a partir da descoberta do ouro pelos bandeirantes paulistas, em fins do século XVII. O Norte do estado, ou seja, a região conhecida como os Gerais”, teve sua formação histórica vinculada ao bandeirismo que aprisionou índios e destruiu quilombos e à formação dos grandes fazendões de gado, em meados do século XVII. Nesse período, segundo Costa, o norte de Minas Gerais era conhecido como os Currais de São Francisco, que também compreendia os Currais da Bahia e os Currais de Pernambuco. Originariamente pertencente à Bahia e à Pernambuco, o norte de Minas foi incorporado à nascente Capitania de Minas Gerais, em 1720.

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4 - ROSA, 2001, p. 341
5 - ROSA 2001, p. 345.
6 - COSTA, 2003, p. 87.

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Desde o momento de formação, duas regiões, portanto, foram articuladas para dar fundação ao estado mineiro: uma vinculada ao ouro e outra vinculada ao gado. O traço histórico diferenciador permite ao estudioso pensar sobre as Minas Gerais na contemporaneidade, onde estão claras as marcas da dualidade aludidas por Costa. Sylvio de Vasconcellos, em artigo que discute a caracterização da mineiridade, conclui: “ao que parece, as Minas se diversificam das Gerais, que se deitaram posteriormente pelos vales dos rios Doce, São Francisco, Parnaíba e Rio Grande”.7

As diferenças apontadas pelos estudiosos estendem-se naturalmente ao comportamento, à linguagem e às formas de representação. A literatura rosiana, que viria ao público com a publicação de Sagarana, em 1946, causaria assombro ao leitor em razão de orientar-se por uma forma inusitada de narrar e por trazer para o livro, sob o aparato poético e com novo estatuto, a forma lenta, sincopada e diferenciada do falar dos Gerais – que se diferencia muito do falar dos mineiros das montanhas.
A cultura dos Gerais seria representada, canonicamente, nas obras de Guimarães Rosa, que buscou nas tradições orais e na fala do sertanejo a matéria-prima para os seus livros. Na fusão de uma erudição (sabiamente preservada em rituais) a estórias, com a linguagem popular, Rosa cria um imaginário peculiar do sertão, que traria à cena cultural do país um lugar até então esquecido. Projetando-se de forma diferenciada de uma tradição de representar o sertão, popularizada especialmente por Euclydes da Cunha, o sertão norte-mineiro apareceria caracterizado por um mineiro, estudioso de costumes e notável pesquisador das estórias e crendices do povo.

O caso específico do escritor Manoel Ambrósio de Oliveira (1865-1947, januarense, autor de obras como Brasil Interior, Hercília, Parapetininga, Antônio Dó: o bandoleiro das barrancas, escritas no

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7 - VASCONCELLOS, 1968, p. 9.

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final do século XIX e início do século XX, constitui-se um elemento isolado entre as publicações norte mineiras com algum alcance e representação afora a própria região. Algumas de suas obras, raras e esgotadas, estão sendo revisitadas em pesquisas recentes, na Universidade Estadual de Montes Claros / UNIMONTES e integram uma rede de pesquisa que coordeno e estudo.

O estudo da literatura rosiana e o contato com as suas fontes primárias (entre os quais se incluem Manoel Ambrósio e Hermes de Paula) – por meio das quais Guimarães Rosa compilou dados para a confecção de suas estórias – reafirmaram a necessidade da recolha, catalogação e estudo de outros escritores do sertão, no sentido de se estabelecer uma linha de pesquisa que contemple as representações, as imagens e a linguagem da literatura do Norte de Minas Gerais.

A carência de estudos que privilegiem a literatura e a cultura do norte de Minas Gerais também contribui para a percepção fugidia e precária da identidade cultural norte-mineira. A construção imaginária dos Gerais mineiros, representada neste estudo pelo cordel realça valores culturais significativos da identidade cultural do sertanejo, merecedores de mais atenção e maior análise por parte da academia.

Falar de identidade atualmente é aventurar-se em terreno escorregadio, eivado de sentidos complexos e deslizantes. Isso decorre, frequentemente, porque os estudos contemporâneos sobre a identidade contemplam várias áreas do conhecimento, não se circunscrevendo, tampouco, a determinadas posições teóricas conhecidas pela tradição. Desse modo, o pensamento sobre a identidade de um povo convoca questões de vários campos de saberes como a história, a filosofia, a psicanálise, as artes e a literatura, requisitando, por essa razão, a utilização dos mais diversos aparatos conceituais e referenciais teóricos para o seu amplo entendimento.

Na análise de Simone Signorini, os estudos recentes sobre a questão da identidade deixam-se orientar por dois tipos de paradigmas: o paradigma da modernidade, que vê o sujeito como pluralidade e a identidade como “forma de totalização ou completude do heterogêneo”; e o paradigma da pós-modernidade ou da crise da modernidade, em que o sujeito é entendido em sua complexidade, na qual cabem noções de “instabilidade, descontinuidade, abertura”, em contraposição à tradição moderna.8

Aliem-se, ainda, a essa questão, os fatores geralmente considerados como suporte ao conceito de identidade como o território (ampliando-se seu conceito para o espaço geográfico, o espaço político ou o espaço da origem); a língua; a comunidade e os costumes (modos de vida, crendices, hábitos, heranças culturais, etc.). As literaturas têm testemunhado, ao longo de diferentes épocas, todos esses fatores. Os escritores têm demonstrado, em sua ficção, uma busca ou definição, ainda que temporária ou mutante, da identidade, que se afirma de modo sistemático, seja do ponto de vista do indivíduo, seja do ponto de vista coletivo.

No caso da literatura de cordel, produzida no norte de Minas Gerais, tais características confirmam-se, e o exame das produções de cordel revela traços e características relativos à memória individual e coletiva que servirão de substrato à construção de uma possível “identidade dos Gerais. Os versos de Cândido Canela, versejador, poeta e cordelista, a seguir, exemplificam tais questões:

Sou sertanejo nacido/
Na mata iscura e bravia,
Numa cafua de paia,/
No cume da serraria!
Naci no léo da pobreza,/
Sem o lume das candeia
Tive pro lume o clarão/
De prata, da lua cheia.

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8 - SIGNORINI, 1998, p. 335-336.
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Os Passarim me sondaro/
Curingú, Chororó,
Juriti, canaro terra,/
Nas moita, nos cafundó
E foi assim qui nasceu/
Um pueta cantadou
Este humilde sertanejo/
Um pobre versejadou.9

No poema, extraído do livro Rebenta-boi, percebe-se que os versos
se projetam rumo a uma identidade individual, reiterada pelo uso da primeira pessoa do discurso e pelas recorrentes imagens referentes
ao lugar de origem do eu lírico e suas condições de vida, culminando com a afirmação final: sou “um pobre versejador”. Além disso, pronuncia-se subsidiariamente uma identidade coletiva, que apresenta elementos constitutivos de um determinado povo ou lugar como descrição sobre o tipo de morada, nomes de passarinhos típicos do cerrado e, principalmente, expressão de uma linguagem específica do sertanejo, em que sobressai a supressão de certas sílabas, a troca de letras e o uso de substantivos considerados arcaicos pela média dos falantes urbanos. O poema sublinha para o leitor duas imagens: a do sertão e a do sertanejo

A leitura, a análise e o estudo das recorrências aos elementos de memória ou da tradição concorre na reconstituição de uma possível
identidade individual e ou coletiva, perdida ou ameaçada, nos folhetos de autores do Norte de Minas Gerais. Tendo em vista a produção significativa de cordéis na região, cumpre ressaltar a contribuição desses autores para a construção ou o reforço de uma identidade coletiva, em seu permanente processo de formação.

O introito a este estudo é suficiente para evidenciar que a arte
do cordel está viva e pujante no Norte de Minas Gerais, malgrado as

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9 - CANELA, 1957, p. 28-29.

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dificuldades de distribuição e visibilidade que todo artista popular carrega. Josecé Alves dos Santos, por exemplo, autor do cordel que serve de epígrafe ao presente artigo, é autor de outros 15 folhetos, entre os quais se destacam: A Moça violada, O coronel, Tio Juca, As aventuras de Théo Azevedo, Pequi, o viagra do sertão, Cordel Cantado e Encantado, Montes Claros e o folclore norte mineiro, Agreste patrimônio do sertão, Os três mosquiteiro do sertão.

Os títulos demonstram que o tema preponderante nos folhetos de Josecé Santos é o próprio sertão, com suas peculiaridades e belezas naturais. Há em sua lírica um orgulho visível em mapear os lugares, ressaltando os rios da região, pássaros, plantas medicinais e façanhas de bravura e valentia. Como é repentista, instrumentista (toca violão, teclado e viola de 12 cordas), poeta e versejador, frequentemente, Josecé alude a seus companheiros de versos, numa prática que denuncia o esforço de colocar em circulação nomes de artistas do povo, quase sempre esquecidos pela grande mídia.

A ele se juntam as figuras de outros cordelistas bem conhecidos na região: Théo Azevedo (homenageado pelo próprio Josecé em um cordel), Jason de Moraes (que, antes de cantar seus versos, entoa um tristíssimo berrante), Cândido Canela (já falecido, mas que imortalizou a arte do cordel em programas de rádio, na cidade de Montes Claros, deixando alguns folhetos impressos). Exceto por Cândido Canela, os demais – Théo Azevedo, Jason de Moraes e Josecé Santos – são fundadores da ARPPNM, Associação dos Repentistas e poetas populares de Minas Gerais. Desse grupo, o mais conhecido é cantador Théo Azevedo, mineiro de Alto Belo, distrito de Bocaiuva, no Norte de Minas Gerais, situado entre os vales dos rios Verde Grande, Jequitinhonha e São Francisco.

Théo Azevedo é filho do poeta e cantador Teófilo Isidoro de Azevedo, também famoso cantador mineiro, de quem herdou a vocação para a poesia popular. Seu pai, figura legendária da região, era alegre folião de reis, aboiador, repentista, pequeno comerciante, tropeiro e ferreiro do local e figura em um poema de Carlos Drummond de Andrade.

Théo Azevedo conserva em sua arte, as mesmas técnicas que passam de pai a filho, de geração a geração, pela tradição, proximidade e oralidade – processos naturais de preservação e expansão da cultura popular. Sua presença na vida artística brasileira manifestase pelas mais de 1500 músicas gravadas por diversos intérpretes, de variados locais do Brasil, entre eles, Luiz Gonzaga, Sérgio Reis, Tião Carreiro, Zé Ramalho, Banda Cacau com Leite, Tonico e Tinoco, Cascatinha e Inhana, Caju e Castanha, Milionário e José Rico, Banda de Pífanos de Caruaru, Valdo e Vael, Jackson Antunes, Domingos, Fernanda Azevedo, Danilo Brito, Ruth Eli e Jair Rodrigues. Também no exterior, ele tem músicas gravadas com intérpretes como o saxofonista inglês Bobby Keys, da banda Rolling Stones e com o gaitista de blues Charlie Musselwhiteuma. Conta também com centena de cordéis publicados, e mais de dez discos editados. Théo Azevedo participa,
como representante de Minas Gerais, de todos os principais festivais que acontecem no Brasil, de Norte a Sul, e, principalmente, em São Paulo. Também fez apresentações musicais em Portugal, em várias cidades, sendo o único cordelista brasileiro a participar de eventos culturais em terras lusitanas.

A literatura de cordel, uma das mais representativas expressões da cultura popular, tem sua origem na Europa. As primeiras histórias impressas faziam parte de um conjunto de requisições manuscritas que compunham o Catálogo para exame dos livros para saírem do Reino com destino ao Brasil” (que se encontra conservado no Arquivo Nacional da Torre do Tombo) e destinavam-se à Real Mesa Censória a quem competia deliberar sobre a autorização, uma vez que toda matéria impressa, para atravessar o Atlântico rumo à Colônia, estava sujeita ao parecer de um censor. No livro Histórias de Cordéis e Folhetos, Márcia Abreu informa que cerca de 250 títulos de cordel foram remetidos para o Brasil. Eram histórias de“Carlos Magno, de “Bertoldo, Bertoldinho e Cacasseno”, de “Belizário, da “Princesa Magalona”, de “D. Pedro”, da “Imperatriz Porcina”, da “Donzela Teodora”, de “Roberto do Diabo”, da “Paixão de Cristo”, de “D. Inês de Castro”, de “João de Calais”, de “Santa Bárbara”, de “Reinaldos de Montalvão”10. No Brasil, esses títulos passavam por outras adaptações, aproximando-os das narrativas orais, já que se destinavam a um público composto por analfabetos, na sua maioria. A originalidade criadora do cordelista transformavam as matrizes dos cordéis portugueses, adequando-os ao cotidiano do povo brasileiro. Formas fixas preservavam uma regularidade como elemento mnemônico, criando uma propensão ao conservadorismo. A questão formal tornou-se de vital importância para reconhecimento da literatura de cordel: a versificação, a sonoridade e a seleção vocabular determinavam a arte e
técnica da produção popular.

Tais narrativas eram publicadas, inicialmente, sob a forma de livros, escritos por autores eruditos, com vistas à circulação entre as elites; sofriam adaptações em seguida para a publicação sob a forma de folhetos de cordel, em uma linguagem mais simples. O enredo do cordel tem como estrutura básica o confronto entre um herói, a quem são atribuídas virtudes morais, em contraposição a um vilão. A narrativa sustenta-se no encadeamento de ações, a descrição de paisagem ou de situações envolvem atitudes dos protagonistas, conferindo universalidade aos folhetos.

Conforme se comprova, o cordel e outras modalidades de literatura
popular encontram se em plena vitalidade no Norte de Minas Gerais, verificando-se que os remanescentes da literatura com base na oralidade ainda têm seu lugar na cultura sertaneja. Conforme expressa Paul Zunthor: “Ninguém sonharia em negar a importância do papel que desempenharam na história da humanidade as tradições orais. As civilizações arcaicas e muitas culturas das margens ainda hoje se mantêm, graças a elas”.11
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10 - ABREU, 1999, p. 132.
11 - ZUMTHOR, 1997, p.10.

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A leitura dos cordéis que circulam na região norte-mineira expressa o importante papel desempenhado por essa modalidade milenar de literatura, pois elas fazem circular dados sobre a cultura e a história de uma época. Conhecida no Brasil como folheto, é um gênero literário popular, escrito frequentemente na forma rimada, originado em relatos orais e depois impresso. Remonta ao século XVI, quando o Renascimento popularizou a impressão de relatos orais, e mantémse uma forma literária popular no Brasil.


O nome cordel tem origem na forma como tradicionalmente os folhetos eram expostos para venda, pendurados em cordas, cordéis ou barbantes, em Portugal. Alguns poemas são ilustrados com xilogravuras, mas essa não é a forma usual dos cordelistas do Norte de Minas Gerais, que substituem as xilogravuras por desenhos à mão, feitos por eles próprios.

A poética de cordel utiliza mais comumente estrofes de dez (décimas)
ou seis (sextilhas) versos. Mas foram verificadas o uso das quadras (4 versos), oitavas (8 versos), o quadrão (em que os 3 primeiros versos rimam entre si; o quarto verso rima com o oitavo e o quinto, o sexto e o sétimo também rimam) e o martelo ou martelo agalopado, com estrofes formadas por decassílabos heroicos, modalidade esta que se comprova a mais comum nos desafios ou repentes, em que um cantador desafia o outro em versos. Embora se utilize aqui a terminologia própria para a poética tradicional, para os cordelistas os versos, na verdade, são as estrofes e estas são divididas em linhas ou pé de verso”, denominação popularizada entre os versejadores. Para atrair a atenção do público e vender seus folhetos, os cordelistas recitam os versos de forma melodiosa e cadenciada, acompanhados de viola, ou fazem leituras muito animadas.

O cordel se enraíza no Norte de Minas Gerais por razões similares as que justificam sua significativa presença no Nordeste brasileiro. As condições geográficas, com destaque para o clima seco do cerrado, as características muito específicas de colonização e o notório distanciamento dos grandes centros favorecem a conservação e a força dos folhetos nessas regiões do Brasil. Apesar do incremento das tecnologias e novas mídias, esses fatores favorecem a sobrevivência dos folhetos de cordel nessas regiões do Brasil. Atuando como uma espécie de cronista do povo, o cordelista pratica uma “poesia circunstancial”, pois recorta fatos noticiosos locais ou do Brasil, narra vidas de celebridades políticas ou artísticas, além de contextualizar crimes bárbaros, acontecimentos jocosos ou fatos insólitos em suas produções. A habilidade do poeta em transformar a notícia em história, tem proporcionado para as camadas populares e para os leitores, de modo geral, uma alternativa diferenciada e legítima de divulgar a cultura brasileira.

Márcia Abreu, estudiosa do gênero, explica que, em virtude desse cenário, entre o final do século XIX e os anos 20, a literatura de folhetos consolida-se no Brasil: são definidas suas características gráficas, seu processo de composição, a edição e a comercialização, constituindo-se um público para essa literatura. Além disso, registrese
que o cordel inspirou e tem inspirado vários escritores brasileiros como Ariano Suassuna, João Cabral de Melo Neto, Ferreira Gullar, Guimarães Rosa, entre outros, além de também influenciar a linguagem da televisão como se comprova com as minisséries Hoje é dia de Maria, Capitu e a novela Cordel Encantado, todas dirigidas por Luís Fernando Carvalho.

Como se sabe, a literatura oral é filha e guardiã da memória; apresenta-se tanto como o lugar da lembrança – e por isso pode ser vista como possibilidade de resgate de identidade – e também como o
lugar da construção de um legado que se transfere às gerações sucedâneas, por isso estará sempre em formação. Como uma das expressões da construção humana, a literatura constrói símbolos e significados que representam e identificam um povo, determinando também o seu pertencimento a uma comunidade ou região específica, o que contribui sobremaneira para a identidade cultural de um povo. Conhecer a própria história cultural, investigando os seus processos de construção, a sua origem e o seu desenvolvimento é pressuposto essencial para se entender e aceitar a identidade e a cultura do outro. Conhecerse é o primeiro passo rumo à valorização das tradições de um povo e de sua preservação.

REFERÊNCIAS

ABREU, Márcia. Histórias de Cordéis e Folhetos. Campinas : Mercado de Letras/ Associação de Leitura do Brasil, 1999.
CANELA, Cândido. Rebenta- Boi. Rio de Janeiro: Irmãos PONGETTI- Editores, 1958.
COSTA, João Batista Almeida. Mineiros e Baianeiros: Englobamento, Exclusão e Resistência . Tese (doutorado). Universidade de Brasília. – UnB, Brasília, 2003.
COSTA, João Batista Almeida. “Minas Gerais na contemporaneidade: identidade fragmentada, a diversidade e as fronteiras regionais.” Disponível em www.
almg.gov.br/CadernosEscol/caderno16/Joao_Batista.pdf. Acesso em 10 de setembro, 2011.
EMEDIATO, Luiz Fernando. Entrevista a Carlos Drummond De Andrade. O Estado de S. Paulo. Caderno2, 15 de agosto de 1987. p. 22-23.
HALL, Stuart. A identidade cultural na pós-modernidade. Trad. Tomaz Tadeu da Silva. Rio de Janeiro: DP&A, 2005..
REBELLO, Ivana Ferrante. Poética de Atrito: pedras, movimento e poesia no Grande Sertão. Tese (doutorado). Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais- PUC/ Minas, Belo Horizonte, 2011.
ROSA, João Guimarães. Minas Gerais. Ave Palavra. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2001. p. 338-345.
SIGNORINI, Inês. (Org.). Língua(gem) e identidade: elementos para uma discussão no campo aplicado. Campinas, SP: Mercado de Letras; São Paulo: Fapesp, 1998.
VASCONCELLOS, Sylvio. Mineiridade, Ensaio de Caracterização. Rio de Janeiro: Editora Imp. Oficial, 1968.
ZUNTHOR, Paul. Introdução à poesia oral. São Paulo: Hucitec/Educ, 1997.


 


Juvenal Caldeira Durães
Cadeira N. 81
Patrono: Nathércio França

O Instituto Histórico e Geográfico de Montes Claros trata, essencialmente, de divulgar assuntos que coadunam com sua própria natureza e assim, procedemos. No entanto, reconhecemos que além da divulgação de monumentos antigos já demolidos injustamente e de fatos históricos do passado, há pessoas notáveis que viram, também, histórias, como é o caso do Dr. Romildo Borges Mendes, principalmente, depois da conversa que tive com seu neto Yury, que demonstra o desejo de ver alguma coisa publicada que lembre o seu saudoso avô.

Eu era professor há certo tempo, quando tive o prazer de encontrar o Dr. Romildo Mendes na velha e saudosa Escola Normal Oficial, ocasião em que ele tornou-se meu colega e professor de Biologia de minha esposa Rosa Terezinha. Assim, continuou na Escola Estadual Prof. Plínio Ribeiro, na FAFIL e na UNIMONTES, ocasiões em que tive a oportunidade de desfrutar a sua sincera amizade. Ele, apesar de exercer altos cargos, era simples, prestativo e atencioso. Nunca prevalecia de sua posição para impor respeito. Era uma pessoa querida por todas aquelas comunidades por onde passava. Tempo depois, ele se afastou por motivo de saúde, ocasião em que contou com nossas visitas e acompanhamento durante sua enfermidade e até o dia do seu sepultamento no Cemitério do Bom Fim.

Lembrando-me do conselheiro que tive nos anos idos, veio-me a ideia de fazer-lhe, uma homenagem no ano do centenário de seu nascimento e publicar na Revista do IHGMC, recordado o nosso saudoso e velho amigo. E, para facilitar a minha composição, Yure forneceu-me um farto e interessante material sobre a vida do saudoso
colega Prof. Dr. Romildo Mendes, o que me faz transcrever uma pequena parte abaixo, na íntegra, para completar o meu trabalho e dar conhecimento real e verdadeiro aos leitores de uma vida de lutas sadias de um grande homem que conviveu entre nós por vários anos.

DR. ROMILDO BORGES MENDES

Falaremos neste mês de um dos grandes nomes da política, educação e saúde do Norte de Minas durante o século XX. Trata-se do Prof. Dr.
Romildo Borges Mendes, cujo nome, para que justiça seja feita, está por merecer o patronato de algum estabelecimento educacional ou hospitalar no Município de Montes Claros / MG, mormente em se tratando de ser este ano o seu Centenário de Nascimento...

Sua biografia encontra-se imortalizada nas obras “Efemérides montes-clarenses: 1707-1962” (Rio de Janeiro: Irmãos Pongetti, 1964), de Nelson Washington Vianna (que foi reeditada em 2007 na Coleção Sesquicentenária, coordenada pela Profª Marta Verônica Vasconcelos, pela Editora Unimontes), às páginas 181-182; e “A Medicina dos médicos... & a outra” (Montes Claros: Imprensa Universitária da UFMG, 1982), de Hermes Augusto de Paula, à página 68. Recentemente, o Jornal de Notícias (Página 02, Memória, Terça Feira, 09 de Abril de 2013, Montes Claros, Minas Gerais) publicou matéria com sua biografia, em resgate à sua memória.

O Dr. Romildo Borges Mendes nasceu às 03h do dia 09 de abril de 1916, na capital do Estado Federado do Ceará, a Cidade de Fortaleza, enchendo de alegria o Lar do então jovem casal, recém-conjugado (1915),Sebastião Mendes dos Santos(*20.06.1889−†fevereiro/1972), natural de Itapipoca/CE, e sua esposa, a luso-brasileira dona Julieta Borges Mendes (*03.01.1898−†13.01.1978), natural de Fortaleza/ CE. Além de Romildo, o casal Sebastião e Julieta teve, ainda, duas filhas mais novas: 1) Dra. Maria Nemaura Borges Mendes, que, como o irmão Romildo (Turma de 1938), também diplomou-se em Medicina pela Faculdade de Medicina da Bahia – FAMEB, atual UFBA (Turma de 1941), mudando-se depois para o Estado de São Paulo, onde exerceu a Medicina sob o CRM/SP de n° 2960 (cancelado) e depois 18340 (aposentado); e 2) Marlene Borges Mendes, que fez-se professora e psicóloga.

Seu pai, Sebastião Mendes, era da parentela materna de Antônio Vicente Mendes Maciel (mais conhecido como “Antônio Conselheiro” e foi notável exemplo de servidor público, enquanto Fiscal de Rendas da Secretaria da Fazenda (SEFAZ) do Estado do Ceará, carreira à qual ele se dedicou por mais de 50 anos contínuos (ocasião em que foi merecidamente homenageado pela sociedade, igreja, maçonaria e imprensa cearenses, pelo “Meio Século de Honestidade e Devotamento ao Estado” – e, quatro meses depois, seu filho Dr. Romildo Borges Mendes batizaria ao primeiro filho homem de seu segundo casamento em sua homenagem: Sebastião Mendes Neto, nascido a 15 de setembro de 1956), sem nunca ter gozado de férias nem tirado licença, desde seu ingresso, aos 16 anos, no dia 02 de maio de 1906. Cidadão probo e ilibado, de notória e incontestável honestidade, merecimento e honradez, Sebastião, que era membro da Loja “Deus e Liberdade, ilustrou os altos quadros da Maçonaria cearense, ocupando os seus mais altos postos.

Foram avós paternos de Romildo os fazendeiros cearenses Joaquim Mendes dos Santos e Maria Evelina dos Santos (filha do Padre José Rodrigues com uma cabocla, era tia materna de Florinda Bolkan); e seus avós maternos os comerciantes portugueses, que vieram para o Brasil no final do século XIX, Ernesto Borges da Silva e Josepha Borges da Silva.

Romildo fez o curso primário no Colégio Nogueira e o secundário no Liceu do Ceará, no Colégio Castello Branco e no Ginásio São João, todos em sua cidade natal. Foi aluno de Dom Helder Câmara. Aos 16 anos, em 1932, ingressou à tradicional Faculdade de Medicina da Bahia – FAMEB (UFBA), onde atuou em sua política estudantil, por meio do Diretório Acadêmico da Faculdade de Medicina da Bahia, e recebeu faixa de reconhecimento de mérito. Ainda ali na FAMEB, diplomou-se em Medicina, em 1938, aos 22 anos, com o título de doutor, por ter defendido tese. Exerceu a Medicina no Estado de Minas Gerais sob o CRM/MG de n° 2929. O Dr. Romildo Borges Mendes (Fortaleza, CE, Brasil, 9 de abril de 1916 — Montes Claros, MG, Brasil, 5 de setembro de 1990)foi:

• Médico (CRM/MG 2929) formado pela Faculdade de Medicina da Bahia, da UFBA (1938), de cujo Diretório Acadêmico participou, e onde recebeu faixa de mérito e título de doutor;

• Médico Sanitarista com Curso de Saúde Pública (1945) pelo Instituto Oswaldo Cruz, no Rio de Janeiro/RJ;

• 2° Tenente da Reserva de Segunda Classe, Médico, do Exército Brasileiro (1944), por ato do então Presidente da República, Dr. Getúlio Dornelles Vargas, e do então Ministro da Guerra, o Generalíssimo Eurico Gaspar Dutra (que, dois anos depois, viria a se tornar o próximo Presidente da República), que subscreveram sua Carta-Patente;

• Médico nos Estados Federados do Amazonas, Ceará, Piauí, Bahia, Minas Gerais, Rio de Janeiro e São Paulo;

• Chefe do Posto de Higiene do SESP, em Teresina (PI);

• Chefe do Hospital do SESP, em Fortaleza (CE);

• Diretor da Maternidade “Senhora Juvenal de Carvalho, em Fortaleza (CE);

• Chefe da S.A. da Delegacia do SAPS, em Fortaleza (CE);• Chefe do Posto da D.O.S., em Coração de Jesus (MG);

• Médico Sanitarista da Secretaria de Estado de Assistência e Saúde Pública do Estado de Minas Gerais, em diversos municípios mineiros, notadamente em Montes Claros (MG);

• Médico-Chefe de Unidade Sanitária (Tipo C) do Município de Montes Claros (MG);

• Chefe do Centro de Saúde de Montes Claros (MG) vide “A Medicina dos médicos... & a outra” (Montes Claros: Imprensa Universitária da UFMG, 1982), de Hermes Augusto de Paula, à página 257;

• Diretor do Departamento Municipal de Saúde e Assistência de Montes Claros (MG) – equivalente à atual Secretaria Municipal de Saúde, foi titular da pasta nas duas gestões do Dr. Pedro Santos à frente do Município;

• Médico da Prefeitura Municipal de São João da Ponte/ MG (1945-1948);

• Médico Sanitarista no Posto de Saúde de Conquista (MG);

• Chefe do Posto de Higiene de Conquista (MG);

• Médico no Posto de Higiene de São Gonçalo do Pará (MG);

• Licenciado pelo Ministério da Educação para lecionar a disciplina de “História Natural” (Biologia) em qualquer parte do Território Nacional;

• Professor de Higiene e Biologia do Colégio Estadual do Ceará (1939-1942), em Fortaleza (CE);

• Professor da Cadeira de Higiene da Classe de Direito do Curso Complementar do Lyceu do Ceará, em Fortaleza (CE);Professor Titular da Cadeira de Biologia da Escola Estadual Prof. Plínio Ribeiro” (Colégio Normal de Montes Claros);

• Vice-Diretor (Gestão de Sônia Prates de Quadros Lopes) da Escola Estadual “Prof. Plínio Ribeiro” (Colégio Normal de Montes Claros);

• Professor no Colégio Imaculada Conceição de Montes Claros (Rede Berlaar);

• Co-Fundador (1967) e co-proprietário, juntamente com o Padre Aderbhal Murtha de Almeida, do Colégio São Noberto, em Montes Claros (MG);

• Professor do Colégio São Norberto, em Montes Claros (MG);

• Proprietário da Rádio “Vera Cruz”, em Conquista (MG);

• Jornalista e Articulista em diversos jornais, notadamente nos jornais “Tribuna de Montes Claros” e “Diário de Montes Claros;

• Co-Fundador (1963) e Suplente do Conselho Técnico -Administrativo da primeira Diretoria (1963) da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras (FAFIL), da atual Universidade Estadual de Montes Claros (Unimontes)– vide “Unimontes: 40 anos de história” (Montes Claros: Editora Unimontes, 2002), organização de Regina Célia Lima Caleiro & Laurindo Mékie Pereira (Capítulo 2 - As Faculdades da FUNM”, de Cláudia de Jesus Maia & Filomena Luciene Cordeiro), às páginas 56, 63 e 64;

• Primeiro Professor da Cadeira de Biologia da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras (FAFIL), da atual Universidade Estadual de Montes Claros (Unimontes)– vide “Unimontes: 40 anos de história” (Montes Claros: Editora Unimontes,2002), organização de Regina Célia Lima Caleiro & Laurindo Mékie Pereira (Capítulo 2 – “As Faculdades da FUNM”, de Cláudia de Jesus Maia & Filomena Luciene Cordeiro), à páginas 63-64;

• Co-Fundador (1964) da Faculdade de Direito (FADIR), da atual Universidade Estadual de Montes Claros (Unimontes) – sendo um dos valorosos homens que, ao dia 09 de novembro de 1964, assinou sua ata de fundação, na assembleia realizada na Associação Comercial, Industrial e de Serviços de Montes Claros (ACI) – vide “Unimontes: 40 anos de história” (Montes Claros: Editora Unimontes, 2002), organização de Regina Célia Lima Caleiro & Laurindo Mékie Pereira (Capítulo 2 – “As Faculdades da FUNM”, de Cláudia de Jesus Maia & Filomena Luciene Cordeiro), à página 72;“Casa do Direito: Ano XV” (Montes Claros: Polígono Artes Gráficas, 1979), de Augusto José Vieira Neto, às páginas 02, 03 e 05; e “Antologia Jubileu de Ouro da Unimontes: prosas & versos” (São Paulo: Editora Catrumano, 2012), organização de Anala Lélis Magalhães e Yury Vieira Tupynambá de Lélis Mendes (Capítulo A “Casa de João Luiz de Almeida”, páginas 86-98, de Augusto José Vieira Neto), às páginas 88-89;

• Primeiro Professor (1965-1968) da Cadeira de Medicina Legalda Faculdade de Direito (FADIR), da atual Universidade Estadual de Montes Claros (Unimontes) vide –“Casa do Direito: Ano XV” (Montes Claros: Polígono Artes Gráficas, 1979), de Augusto José Vieira Neto, às páginas 03 e 05; e “Antologia Jubileu de Ouro da Unimontes: prosas & versos” (São Paulo: Editora Catrumano, 2012), organização de AnalaLélis Magalhães e Yury Vieira Tupynambá de Lélis Mendes (Capítulo A “Casa de João Luiz de Almeida”, páginas 86- 98, de Augusto José Vieira Neto), à página 89;


• Co-Fundador (1969) da Faculdade de Medicina (FAMED), da atual Universidade Estadual de Montes Claros (Unimontes), para a qual apresentou seus títulos para reconhecimento da Faculdade – juntamente com os primos de sua esposa (Terezinha de Lélis Mendes), Dr. Mário Ribeiro da Silveira e Dr. Antônio Augusto Tupynambá; do Dr. Hermes Augusto de Paula, e muitos outros asclepianos de notável valor, foi um de seus idealizadores, pré-fundadores e fundadores (1969), além de integrar, por muitos anos, seu Corpo Docente – vide“A Medicina dos médicos... & a outra” (Montes Claros: Imprensa Universitária da UFMG, 1982), de Hermes Augusto de Paula, às páginas 345-346;

• Primeiro Professor da Cadeira de Medicina Preventivada Faculdade de Medicina (FAMED), da atual Universidade Estadual de Montes Claros (Unimontes), aprovado pelo Parecer de n° 26/69, do CEE-MG (Conselho Estadual de Educação de Minas Gerais), de 04/03/1969, publicado no “Minas Gerais” em 01/04/1969– vide “A Medicina dos médicos... & a outra” (Montes Claros: Imprensa Universitária da UFMG, 1982), de Hermes Augusto de Paula, às páginas 345-346;

• Vereador da Câmara Municipal de Montes Claros (MG), onde tomou posse em 15 de junho de 1963, pela UDN;

• Procurador (1959) da Prefeitura Municipal de Montes Claros, junto à Campanha Nacional de Educação Física do Ministério da Educação e da Cultura, onde conseguiu recursos para a construção dos vestiários para o Campo de Esportes, e pela complementação das instalações do Play-Ground, unidades existentes no Centro de Educação Física de Montes Claros;

• Cidadão Honorário de Montes Claros (Câmara Municipal de Montes Claros, 18 de novembro de 1980), título a que fez jus, pelos relevantes serviços prestados à centenária Princesa do Norte”, por requisição de autoria do nobre Vereador Humberto de Souza Lima Pereira, aprovada como Resolução de n° 170, de 29 de maio de 1974 – vide “Montes Claros: sua história, sua gente e seus costumes” (Montes Claros: 2ª edição, Volume I, 1979), de Hermes Augusto de Paula (que foi reeditada em 2007 na Coleção Sesquicentenária, coordenada pela Profª Marta Verônica Vasconcelos, pela Editora Unimontes), à página 197; e “Cidadãos de Honra (1953-1999) (Montes Claros: ImpreSet, 1999), editado pela Câmara Municipal de Montes Claros – MG, à página 26. Desde sempre muito bem relacionado, o Dr. Romildo Borges Mendes sempre figurou nas altas rodas políticas mineiras, inclusive mantendo amizade pessoal com grandes homens públicos brasileiros, como os exgovernadores Dr. Francelino Pereira dos Santos (tal como ele, também um dos fundadores da Faculdade de Direito da Unimontes, em 09 de novembro de 1964), Dr. José de Magalhães Pinto, Dr. José Francisco Bias Fortes (com o qual, durante sua governadoria, certa feita se desentendeu e o mandou “à puta que o pariu”), Dr. Rondon Pacheco, etc. Vide Revista “Montes Claros em foco” (Ano XII, n° 36, Agosto de 1979 – O Dr. Romildo Borges Mendes casou-se, em segundas núpcias, com dona Terezinha de Lélis Mendes (*05.10.1933), em 1950. Sua esposa, de tradicional família montes-clarense, nasceu em Coração de Jesus (MG).



Leonardo Álvares da Silva Campos
Cadeira N. 97
Patrono: Urbino Vianna

Origens do Homem
e do Estado

O homem surgiu nas atuais nações africanas Quênia e Tanzânia, há 2 milhões e 800 mil anos. Era o “Homo habilis”, o pai da nossa espécie. É de se observar que não existiam fronteiras, isto é, não tínhamos os países, como hoje os conhecemos. Veio o “Homo erectus” e, por fim, os primeiros “Homo sapiens”, ainda sem criação da teratológica figura do Estado. Temos a mesma origem, lá nas savanas africanas, todo um território livre à sobrevivência e posterior dispersão do caçador-coletor. Tudo era compartilhado, tarefas divididas: o homem caçava e coletada, a mulher cuidada das lides domésticas, sendo, após, da responsabilidade desta, por vezes divididas também, o plantio, a colheita, a feitura da cerâmica e manifestações artísticas. Indo mais adiante no tempo, já antes do obscurantismo medieval, inventaram o Estado. Uma figura, com certeza, teratológica, imiscuindo-se na vida de todos, inventando impostos, taxas, fronteiras, guerras, ganhos de guerra (no que os EUA e poucos outros são experts”, como a França, com seu Tratado de Versalhes pós-primeira guerra), costumes, etc. Teríamos necessidade do terror do Estado? Por certo que não. No entanto, ele veio, gostou e ficou, apenas para alimentar a soberba de uns poucos bafejados pela sorte, com o que se criou o excluído da sociedade. Em outras palavras, esse excluído é o serviçal das castas, a mão de obra inculta e barata. No Estado nada é o que parece ser, mesmo a nação com melhor fama de ser democrática. No Estado nem sempre manda o presidente, o primeiro ministro, etc., mas uma casta, a qual passa pelo banqueirismo e que vive nas sombras. É a verdeira dona do poder, imiscuindo-se em tudo a partir do domínio da mídia e detendo efetivamente a chave do erário. Essa casta, chamo-a de ‘o mundo das trevas’, nos seus conchavos na calada da noite para exercitar seu total domínio sobre os pobres de espírito (indolentes mentais), e mesmo traçar seus planos de domínio sobre o mundo, sendo certo inclusive que essa ‘força oculta’ tem para si que a nossa Amazônia nunca foi nossa, mas, sim, dos verdadeiros donos do mundo. O aparentemente simpático presidente norte-americano, Barack Obama, pai de família exemplar, creio que mesmo um homem com bons propósitos, seria mesmo ele a decidir os destinos daquele povo? Por certo que não. Uma força propulsora norte-americana está evidentemente no banqueirismo, com aplicações inclusive do mundo árabe e do Estado de Israel. Sem esse capital amanhã, ou seja, quem de direito retirando o que é seu, o império desaba espalhafatosamente. A invasão iraquiana, sob falso pretexto, foi uma tentativa nem tão bem sucedida de recuperação da cada vez mais combalida economia norte-americana, a qual ainda é sustentada por capital externo ali aplicado. Ora, o ideal seria como antes, o mundo sem fronteiras daqueles tempos pré-históricos e adentrando-se nos primeiros tempos do sedentarismo da agricultura, marcando o surgimento dos primeiros aldeamentos. Pelo menos a hipocrisia, a soberba, o banqueirismo, enfim, o Estado, nada existiria para nos preocupar. Por certo, algo utópico nos tempos atuais, mas hoje eu, particulamente, até prefiro alimentar-me de utopias, quando vejo que o homem sequer respeita seus consanguíneos, fazendo-nos ver, a cada esquina, uma inacabada família humana. Se precisamos de um protecionismo norte-americano? Ora, por certo que não. Pelo bem ou pelo mal, cuidemos nós mesmos do nosso destino. E que os Estados Unidos da América, com sua democracia de aparência, se preocupem em bajular seu principal protetor, depois a outros seus protetores secundários, os quais - refriso - são os verdadeiros donos do poder por lá. Fiquemos, de momento, de olhos nas utopias outras do presidente de lá, Barack Obama.




Manoel Messias Oliveira
Cadeira N. 60
Patrono: Jorge Tadeu Guimarães

A INTEGRAÇÃO NACIONAL
PELO RIO SÃO FRANCISCO

A historia da navegação a vapor do rio São Francisco, interessa, e muito, ao norte de Minas. No século XIX a região não contava com estradas, apenas caminhos improvisados; pelas condições topográficas, as tropas eram essenciais para o transporte de cargas viajando dias e dias, rompendo obstáculos e vencendo as longas distâncias para atender às necessidade do sertanejo, facilitando, sobremaneira, os contatos entre pessoas e lugares.

Mas essa precariedade não podia continuar. Premente era a de se criar meios mais eficazes, seguros e menos penosos. Então, em 1862, foi constituída uma comissão visando desobstruir o rio das Velhas, desde Sabará/MG, para permitir a navegação até atingir o São Francisco. Em 1867, o presidente da Província de Minas Gerais, conselheiro Joaquim Saldanha Marinho, montou um navio a vapor, que recebeu o seu nome. Sua primeira viagem ocorreu em 10 de janeiro de 1871, chegando ao povoado de Barra do Guaicuí, no município de Várzea da Palma a poucos quilômetros abaixo de Pirapora, em 3 de fevereiro do mesmo ano. Estava inaugurada a navegação a vapor, criando elo entre o norte de Minas e os Estados do Nordeste, além de
facilitar os contatos com as demais regiões de Minas Gerais.

O rio era a esperança do sertanejo, ele agia como uma locomotiva do desenvolvimento, uma vez que os vapores navegavam com segurança e carregavam de tudo: gente, animais e mercadorias diversas, de porto em porto, de cidade em cidade em viagens memoráveis.

O São Francisco ficou conhecido como rio dos coronéis e dos desbravadores. Banhando cinco estados da federação, Minas Gerais, Bahia, Pernambuco, Alagoas e Sergipe, sempre foi um grande caminho por onde as multidões e as riquezas passavam e, de cujos meandros, não devemos esquecer porque de grande valor histórico, não só para o norte de Minas, como também para o país. A navegação visava também promover a integração nacional, uma vez que o interior do Brasil era isolado, a civilização restringia ao litoral; então a navegação a vapor surgiu por absoluta necessidade da integração de uma região carente de transportes e comunicações com os pólos considerados desenvolvidos.

Originariamente, as margens do rio, foram habitadas por índios; e, paulatinamente, ocupadas por negros e brancos. Estes ocupantes colocaram n’água canoas e barcas até chegar aos sofisticados navios, simplesmente chamados de “VAPOR”, que chegavam ou saíam da base em Pirapora pelo leito do “Velho Chico” e seu afluentes, soltando faíscas fumarentas por suas compridas chaminés, que no resfolegar de suas máquinas venciam as correntezas carregados de gente e mercadorias, desde a segunda metade de século XIX até o terceiro quartel do século XX, fomentando o desenvolvimento daquela importante cidade do norte de Minas, com reflexo positivo em toda a região, impulsionando o desenvolvimento de Montes Claros.

Uma navegação precária, mas volumosa que beneficiava, além dos ribeirinhos, as cidades de toda a bacia hidrográfica, num curso de 1370 Km. de Pirapora/MG a Juazeiro/BA, sem o cômputo dos seus afluentes. Naquela época havia um intenso êxodo de nordestinos para São Paulo, a procura de uma vida menos sofrida. Houve uma grande migração por causa da seca no Nordeste em direção à capital paulista e outras regiões do País, em face às secas prolongadas; milhares e talvez milhões de nordestinos fugiram em direção ao Sudeste, Norte e Centro-Oeste. Deslocaram viajando nos lendários vapores de Juazeiro a Pirapora e continuaram a viagem no trem da Central do Brasil.

Naquela época o interior do Brasil padecia. O atraso imperava em todos os setores. Para fomentar o desenvolvimento surgiu a navegação a vapor; muitas foram as empresas que administraram a navegação fluvial, a última foi a Companhia de Navegação do São Francisco – FRANAVE, criada em 1963.

Os vapores subiam e desciam o rio fumegando para o ar, vencendo as distâncias. Zarpavam saudosos com apito longo e demorado. Muita gente não perdia a chegada de um vapor no porto para ver aquela embarcação bonita, cheia de gente e mercadorias.

Nos gloriosos tempos da navegação, quando o vapor apitava ao aproximar-se de um porto qualquer, os habitantes do lugar corriam


Vapor Benjamim Guimarães

para a beira do rio para vê-lo chegar e sair, engolindo lenha e cuspindo fagulhas. Em cada porto desembarcava um chefe de família de volta para casa, ou um filho com saudade dos pais. Gente que voltava de São Paulo para rever a terra natal. Na década de 60 do século passado, foram adaptados para turismo os vapores Wenceslau Braz, São Francisco e Benjamim Guimarães. Hoje temos somente o vapor Benjamim Guimarães navegando para passeios turísticos, doado pela FRANAVE à Prefeitura de Pirapora em 9 de janeiro de 1997 e tombado pelo Instituto Estadual do Patrimônio Histórico e Artístico de Minas Gerais – IEPHA/MG.

No auge das operações nada menos de 45 vapores com essa força motriz viajavam pelo São Francisco e seus afluentes navegáveis. Navegavam rio acima, lentamente, vencendo as correntezas, deslizando suavemente pelas beiradas a roçar a quilha nos barrancos. Descendo o rio, a viagem era relativamente rápida. A viagem ficava mais prazerosa ao balanço do vapor com sua roda-popa sugando águas, porque para baixo todos os santos apareciam para ajudar. Foi nesse período áureo que esses vapores, no transcorrer da 2ª. Guerra Mundial, a partir de 1942, em face ao torpedeamento de navios brasileiros, foram usados para o transporte, com segurança, dos pracinhas para o teatro de guerra e prisioneiros com destino a ilha de Fernando de Noronha. Os soldados chegavam a Pirapora pela Estrada de Ferro Central do Brasil e seguiam para Juazeiro nos vapores, dali para o litoral nordestino. Da mesma forma, transportaram soldados para dar combate à Coluna Prestes.

Com o tempo várias rodovias foram construídas interligando o interior aos grandes centros e em 1981 a navegação começou a entrar em declínio e em face à nova realidade acabaram com a FRANAVE porque transformou em uma empresa deficitária e deva prejuízo.

Caminho da história, ou caminho da civilização brasileira, como bem disse Euclides da Cunha em “Os Sertões”; rio carinho samente alcunhado de “Velho Chico”, desde o segundo Reinado do Brasil, cuja navegação a vapor começou na cidade norte-mineira de Pirapora. Rio que era da Unidade Nacional e que hoje, pela ação estúpida dos homens está agonizando, pedindo socorro e que a cada dia se finda, e já dá os ares de que está morrendo, corre o risco de desaparecer por completo, sem deixar vestígios. Ainda existe tempo de fazer algo nesse particular, pois poucas coisas são, em si, impraticáveis. Os homens fracassam mais por falta de esforços do que por falta de meios.

Tomando de empréstimo as palavras do Cardeal Shuster, podemos dizer que: “Deus perdoa sempre, os homens algumas vezes, mas a natureza nuca”.

 

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FONTES:
São Francisco Sustentável
Ministério da Integração Nacional.
Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República.
Rio São Francisco Vapores & Vapozeiros
Domingos Diniz. Ivan Passos Bandeira da Mota. Mariângela Diniz.



Mara Yanmar Narciso
Cadeira N. 98
Patrono: Virgílio Abreu de Paula

Vamos brincar
na Praça de Esportes ?

Em 1961, aos seis anos de idade e estudando no Colégio Imaculada Conceição de Montes Claros, fui morar no centro, à Rua Carlos Gomes, 167, apartamento 103. O prédio, recém-construído, no qual morei por dez anos, era pequeno, com quatro apartamentos simples e apertados. O que morávamos ficava na parte de trás. Entre um lance e outro da escada, do primeiro ao segundo andar, havia uma abertura, de onde as crianças espiavam a rua. A greta para o mundo ficava fechada, porque a vizinha de baixo tinha sua janela acoplada à janela da escada e exercitava o seu direito de fechá-la, para o meu desespero, do meu irmão Helder e dos primos Virgínia, Vânia e Júnior, que moravam no apartamento de baixo. Quando aberta, ficávamos sentados no chão da escada, com as pernas dependuradas para fora, atrás das grades, nos deliciando com o mundo lá fora.

O prédio tinha um terraço grande, onde podíamos brincar de cabana com os restos de construção, e andar de bicicleta. Era perigoso, pois tinha uma mureta baixa. As crianças ficavam lá no alto por boa parte do dia, mas a minha mãe Milena e minha tia Ninha iam

nos vigiar ou mandavam alguém. Estar no terraço era a glória, mas de vez em quando, devido às brigas pela água que nos faltava, o dono do prédio mandava fechá-lo, e nós sofríamos, presos em casa. Ainda não tinha televisão, que viria em 1964.

Quando fiz sete anos, Helder e eu fomos aprender a nadar com Sabu, o grande professor de natação, na Praça de Esportes, que ficava a dois quarteirões. Milena nos levou umas poucas vezes e depois íamos sozinhos. Lá conhecemos Ricardinho, Patrícia e Decinho. Eram meninos que moravam num prédio vizinho, na Rua Lafetá. Todos os dias nós íamos visitá-los. Estar lá era garantia de mais espaço e estripulias. Subíamos na janela do quarto de Patrícia, íamos para o exterior do prédio e andávamos sobre o telhado da casa vizinha, circulando pelo parapeito, loucamente. Fazíamos equilibrismo e escalávamos tudo em volta. Apenas por milagre ninguém se machucou. Foi naquela casa que escutei pela primeira vez a música Alegria, Alegria, de Caetano Veloso, num disco compacto. Ouvimos mil vezes, até quase furar o vinil, que tinha duas músicas.

A Praça de Esportes, inaugurada em 1942, ocupava todo um grande quarteirão. Era cercada por uma cerca de arame debaixo de uma cerca de fícus. Para entrar, era preciso ter pagado a mensalidade, e na portaria falávamos o nome do pai. Como íamos todos os dias, o porteiro (que olhava uma lista) não nos perguntava nada. Tinha vários portões, sendo o acesso à piscina pela entrada principal. Havia um jardim bem cuidado, com canteiros de flores, chão de cimento e árvores esculpidas em vários formatos. Lembro-me de um bule de fícus. Lá voavam borboletas que caçávamos com um pegador feito por nós mesmos, de arame e tule. Ninguém nos coibia. Corríamos e as capturávamos, matando-as e espetando-as com um alfinete numa placa de isopor. Havia uns poucos tipos que capturávamos, e até lhes dávamos nomes. Uma delas meu irmão batizou de “lócus pocus”. Arrepio ao me lembrar da nossa crueldade.

Na frente à esquerda ficavam as quadras de futebol de salão. Então, vinha a construção principal com amplos vestiários, homens à direita e mulheres à esquerda. Os corredores eram cobertos por estrados e havia água por baixo. O cheiro de cloro me vem às narinas. Só entrava na água quem tomasse uma ducha. A aula das meninas era às 15 h e a dos meninos às 16 h. A piscina era semi-olímpica. Sabu nos dava uma tábua retangular e ficávamos, após o aquecimento, batendo pernas e atravessando a piscina pra lá e pra cá. Após a aula as meninas pulavam para nadar como quisessem. Depois de três meses, o professor me pediu para nadar. Como não tive coragem, ele me pegou no colo e me jogou no meio da piscina. Então eu nadei.

Atrás da piscina ficavam as mesas de ping-pong. Eu não conseguia jogar bem, mesmo depois dos dez anos. No fundo, à direita, havia a boate. No passado havia um baile de 10 as 12 h da manhã, no qual os jovens dançavam. Desativada, nas imediações, nós caçávamos lagartixas, ovos delas (moles, que pulam quando jogados no chão) e coletávamos látex de uma velha figueira que ficava ao lado do campo gramado. Com ele fazíamos chicletes. Caso fosse veneno teríamos morrido. Atrás da boate tinha campos de tênis, de terra vermelha. No fundo, do lado esquerdo tinha uns pés de jambo.

A grande festa eram os brinquedos que estavam em dois locais, perto da piscina infantil e também nos fundos. Tinha dois escorregadores imensos, de madeira, que hoje seriam proibidos, devido ao risco de acidentes. Talvez fossem liberados com capacete e rede de segurança e não tinha nada disso. Os balanços eram altos, e nós balançávamos de pé, até o limite de rodar por cima da trave, cantando aos berros e rindo a bandeiras despregadas. Nas férias, fazíamos isso todos os dias, por vários anos. Era a grande diversão de meninos enclausurados. Sabíamos todas as letras de músicas da moda, que ouvíamos no rádio e discos. Não havia qualquer censura, moderação ou medo. Ninguém nos perturbava, olhava ou marcava hora. Após a aula de natação, sem relógio, a noite era o aviso de irmos para casa. Nunca aconteceu nada. Nós adorávamos a liberdade infinita, assim como era a confiança dos pais no ambiente da praça. Nem dá para acreditar.



Mara Yanmar Narciso
Cadeira N. 98
Patrono: Virgílio Abreu de Paula

Venham pra feira!
É em Montes Claros !

Toninho Rebello, o melhor prefeito de Montes Claros, tinha uma visão administrativa arrojada, mas seus detratores dizem que não respeitava a História. Derrubou o Mercado Central em 1967 para limpar a Praça Doutor Carlos e fez outro à Rua Coronel Joaquim Costa. Queria conter a feira dentro de um prédio. Na cidade da época as pessoas se conheciam e a construção, ampla e limpa parecia suficiente. A fiscalização tinha pretensão civilizatória.

Açougues de azulejo, açougueiros de jaleco branco e lixeiras chegaram. A carne de sol brilhava nos ganchos mostrando a vocação local. Adiante, um arsenal de chás, beberagens, pinga, bucha vegetal, queijo, requeijão e manteiga, lojas de roupas populares, temperos e corantes (urucum) expostos em grandes bacias, medidos com colheres de sopa, toda sorte de bugigangas setorizadas. Noutro galpão, bancas com legumes e frutas do sul arrumadas de forma atraente. Do outro lado, muitos sacos de feijão, milho, farinha, fubá e seus derivados, e adiante, num pátio não coberto, vendiam-se animais vivos.

No sábado, a feira era incontida. Feirantes invadiam a rua. Os compradores chegavam a pé com cestas de taquara, sacola de lona ou embornal de pano ou couro. Alguma coisa era embrulhada em papel de pão ou de carne, alguns reutilizados, mas a maioria era colocada nua dentro da sacola.

As paneleiras vendiam seus produtos de barro. Traziam potes, bilhas, jarros e brinquedos. Boa parte era exposta no chão, sem bancas, no máximo em cima de trapos ou sacos. As vendedoras eram mulheres que já nasciam velhas. Em geral maltratadas, desdentadas, descalças, com panos de saco amarrados na cabeça, roupas remendadas e até rasgadas, nos típicos vestidos rodados caipiras de cor verde ou rosa, quando ainda restava cor, muitas vezes sobre calças compridas. Algumas tinham sandálias de borracha, geralmente gastas e com tiras rompidas e amarradas com cordão e de cores diferentes entre si. Tiravam do chão seu sustento na forma de argila, formatavam a mesma toada sem arte, durante gerações. Assavam seu suor nalgum forno e na feira defendiam seus trocados. Traziam seus filhos pequenos que ficavam dentro de caixotes ao sol ou sob finos panos. Essas trabalhadoras eram chamadas agregadas, moravam “de favor”, os maridos trabalhavam na roça e recebiam a feira no sábado. Quase nunca viam dinheiro.

Outras mulheres produziam na madeira gamelas, conchas, colheres, ou faziam peneiras, vassouras, balaios, fruteiras e cestas de taquara ou arame, numa cantilena sem fim. As verdureiras produziam couve, coentro, cebolinha, alface e outras folhas. Traziam tudo na cabeça, dentro de pesados cestos, e falavam que vinham do Pentáurea, lugar de água limpa e de abacaxi famoso, de carne amarela muito doce. Eram conhecidas pelo nome e costumavam ficar na mesma área. Reservavam seus produtos para as freguesas, assim como guardavam no chão, cobertas com panos, as cestas delas. Alguns curiosos bisbilhotavam, cobiçando a feira alheia, mas a verdureira, tirando a mão intrusa dizia: é compra.

Eu era uma menina magra que carregava uma cesta de taquara que machucava meu braço, ainda assim, gostava de ir à feira com Milena, a minha mãe. Era uma manhã preciosa estar com ela e vê-la usar com ciência o parco dinheiro que meu pai lhe dava.

O tempo das águas trazia frutos do cerrado, que afiaram meu olfato, capaz de separar produtos de um cheiro só. Têm o mesmo odor e nunca se desimpregnaram de mim: murici, pequi, manga-ubá, panã e coquinho azedo. Só muito cedo para achar raridades como mangaba e murici, sendo preciso ficar de olho nas beiradas, pois os coletores ficavam desconfiados nos cantos, de olhos no chão, com o pequeno tesouro nas mãos, querendo ir embora logo.

Homens traziam em bruacas sobre cavalos sua produção de feijão catador, de corda, verde, e andu. Os animais ficavam amarrados nas proximidades, sujando o mundo, enquanto eles vendiam sem balança, medindo em “litros” de óleo de 900 ml, ou meiando um prato fundo esmaltado, passando a mão por cima. Farinha de mandioca, goma, beiju, farinha de milho e arroz estavam lá.

Periquitos, jandaias, mico, preá e pássaros eram vendidos como qualquer outro produto. Pintinhos de granja de um dia só serviam para morrer. Banana e laranja eram vendidas de dentro de carros velhos, sendo contadas as dúzias e colocadas nas sacolas pelos próprios produtores do inóspito sertão, onde então, chovia com regularidade.

Favos de mel eram vendidos dentro de uma lata no chão, e não se pensava em adulteração. Os legumes eram pequenos, e havia mangarito, inhame, mandioca, batata doce, abóbora, quiabo, maxixe e caxi. Vendia-se mamão verde como legume. Jenipapo, jatobá, jambo, bacupari, pitomba, côco macaúba e buriti eram apreciados. É preciso conhecer para comprar rapadura boa. Melancia curraleira vinha inteira, e o comprador dava piparotes para desvendar seu interior, ou abria uma pequena janela quadrada para ver sua cor. A cana-de-açúcar era dita cana caiana.

A escolha do frango caipira em pé era para entendidos. Não se pesava e o tamanho era estimado na hora. O bicho peado com palha de milho era colocado de cabeça para baixo, levantado e abaixado, avaliando-se a grossura das coxas. Ovos de galinha caipira eram escolhidos abrindo-se uma brechinha na palha para olhar a casca, contando-se as dúzias. Havia quem sacudia o produto e o olhava contra o sol.
Meninos magrelos recebiam algum trocado para levar as compras. Sem café, mal se aguentavam de pé. A feira de sábado, um dia já foi assim.



Maria Inês Silveira Carlos
Cadeira N. 38
Patrono: Francisco Sá

Inauguração do Prédio da
Prefeitura de Francisco Sá e a
chegada da lu z de Santa Marta

A Prefeitura Municipal de Francisco Sá funcionava em um pequeno prédio na Rua Olímpio Dias e vários Prefeitos nomeados trabalharam por lá. Sendo o Dr. Feliciano Oliveira o primeiro Prefeito eleito, este também trabalhou por dois anos neste prédio. Há um fato interessante: Feliciano tomou posse antecipada. Sendo a eleição no mês de outubro, a sua posse se deu em novembro, por que o Sr. Benjamin Figueiredo que ocupava o cargo de Prefeito abandonou a cidade e o município ficou sem comando. Assim sendo, o Tribunal Eleitoral deu posse antes da data oficial ao Sr. Feliciano Oliveira.

Havia em Francisco Sá uma associação chamada Sociedade dos Amigos, que pretendia construir uma Casa de Saúde no começo da Avenida Getúlio Vargas e por algum motivo não conseguiu terminar a construção, achou por bem doá-la ao Município para construir o prédio da Prefeitura.

E esta foi inaugurada em fevereiro de 1949 e sendo também sede da Câmara Municipal e era para os padrões da época um prédio bonito, moderno e confortável.

Primeiros funcionários que trabalharam na Prefeitura Municipal de Francisco Sá: Prefeito Municipal: Feliciano Oliveira; Vice prefeito: Enéas Mineiro de Sousa; Funcionários administrativos: Alzira Andrade da Silveira, Julieta de Brito Campos, Miguel Soares de Miranda, Nélson Gonzaga da Cruz, Sebastião O.S. Colares Bessa; Antônio Ribeiro da Silva, encarregado do Mercado e do Matadouro; Antero, encarregado de recolher o lixo (carroça e burro); Andreza e família (varriam as ruas); Jorge, cuidava da caldeira que fornecia a luz.

Hoje onde funcionou a primeira Prefeitura de Francisco Sá está o prédio do Tribunal de Justiça Onofre Mendes Júnior. Com o decorrer
do tempo a Câmara Municipal construiu prédio próprio. Com o crescimento da população e o aumento dos serviços, se fez necessário ampliar a Prefeitura e outro prédio foi erguido ao lado do outro e hoje os dois funcionam com uma boa estrutura para atender à população da melhor maneira.

OBS. No momento em que escrevo estas memórias, só a minha mãe, Alzira Andrade da Silveira, ainda permanece viva, e me narrou
todos estes fatos. No dia 4 de março de 2017, ela completou 98 anos.


LUZ ELÉTRICA QUE VEIO DA USINA

A energia elétrica chegou a Francisco Sá em vinte e seis de julho de 1949 e aconteceu durante o dia. Grande festa. Antes a cidade era iluminada por uma usina, cuja caldeira era alimentada com lenha e que ficava no local onde hoje é o Correio. Começava a funcionar a partir das dezenove horas e desligava à meia noite e havia um apito para anunciar o encerramento.

Feliciano Oliveira o primeiro prefeito eleito (1947), era uma pessoa dinâmica e de grande visão. E trazer a energia elétrica para Francisco Sá foi uma das suas bandeiras. Não foi muito fácil: O Governador Milton Campos era seu adversário político e a oposição local apostava que ele não conseguiria tal intento. Os adversários diziam que: ”Se cipó acender luz, esse prefeito põe luz aqui.” Era uma referência a distância da Usina de Santa Marta, e no pensamento deles não haveria fios suficientes para chegar à cidade. Estavam errados, porque a vitória foi de Feliciano, com uma luz da melhor clareza, mais do que tudo, qualidade.

Minha mãe, Alzira Andrade da Silveira, foi uma das primeiras funcionárias da Prefeitura, e estava de licença maternidade pelo meu nascimento. O único aparelho telefônico existente na cidade ficava na Prefeitura Municipal e como não havia outra pessoa para atender ao telefone, este foi locado na casa de meus pais, para que minha mãe o atendesse e passasse as informações para o Prefeito. Por isso que no momento da inauguração o Prefeito Feliciano Oliveira foi para a minha casa telefonar para seus correligionários e autoridades em Belo Horizonte comunicando o inusitado fato e ouvir o foguetório que pipocava por todos os cantos da pequena Francisco Sá.

Wilson Maldonado veio de Montes Claros para colocar os padrões e Nego de Rogério ficou encarregado de fazer a leitura dos relógios e também fazer consertos e este depois foi substituído pelo seu irmão Geraldinho.

Assim que o Prefeito anunciou sua intenção de colocar a energia elétrica na cidade, as famílias mais abastadas começaram a adquirir aparelhos elétricos tais como: ferro para passar roupas, geladeira, liquidificador, rádio, etc.

Com a chegada da energia elétrica, Francisco Sá passou a usufruir de muitos confortos até então impossíveis. Além de melhor iluminação nas residências e nas ruas e dos aparelhos domésticos que vieram trazer mais comodidade e conforto, foi inaugurado o Cine Mineiro, que foi a grande novidade para os francisco-saenses. Ah! O Cine Mineiro, quantas estórias para contar. Teremos um capítulo só para ele.



Marilene Veloso Tófolo
Cadeira N. 95
Patrono: Terezinha Vasquez

Simeão Ribeiro Pires
O pesquisador

Era ainda criança quando fui visitar com o meu avô, José Antônio Veloso, a casa de Dr. Simeão. Nesta época, ele começou a colecionar vários objetos em sua casa, inclusive uns que me impressionaram bastante, eram esqueletos que pareciam múmias, que vieram de Itacambira.

Estes objetos, hoje alguns fazem parte do Museu de Montes Claros. Já nesta época ele começava a sua vida de pesquisador e amante de tudo que relacionava com civilizações extintas, histórias de cidades mineiras e contos afins...

Sendo engenheiro civil, professor do Colégio Estadual Professor Plínio Ribeiro, político, prefeito de Montes Claros, possuía a dom da oratória, mas recordo que o que eu mais apreciava eram os comícios do PR (Partido Republicano), onde nos caminhões, com sons tocavam “Pisa na fulô, não maltrate meu amor!”. Vinham cantores de fora, Dalva de Oliveira e outros...

Quando iniciei o curso de História da Fafil, o Dr. Simeão foi nosso colega. Ele queria fazer o curso para os seus trabalhos de pesquisa. Dr. Simeão escreveu os livros Raízes de Minas, Serra Geral e Gorutuba.

Através de seus estudos e conhecimentos, realizou pesquisas na Torre do Tombo, em Portugal. Escreveu os livros que relatam a nossa história local e regional.


Simeão Ribeiro Pires

Hoje através de seus escritos e pesquisas, podemos conhecer nossa história, local e regional, e a valorização do homem mineiro, e montes-clarense.

Foi um pioneiro, estudioso, que lutou pela pesquisa local e regional, resgatou a nossa história através dos seus livros.

Através dos seus livros, faz investigação dos segredos e mistérios em que mergulha o povoamento da terra mineira”.

A cada trilha que Simeão Ribeiro passou, mostrou que Minas, através das suas pesquisas na Serra Geral, fugiu da historiografia regional e mostrou o novo retrato dos gerais”.

CONCLUSÃO

O homem através dos seus escritos, suas pesquisas locais e regionais, contribui para a formação de nossa história local e regional, trazendo valiosa contribuição para o conhecimento em geral em todos os seus ramos.

No livro do autor: Serra Geral, de Simeão Ribeiro Pires, editado após seu falecimento, ele nos mostra o seu talento, através dos lugares comuns da historiografia regional, como observou João Camilo de Oliveira Torres, e confirmado por Aires da Mata Machado Filho, quando homenageava o homem leitor, de papéis antigos, mas também acostumado a varar serras, e andar pelas matas, com a visão concreta do Engenheiro formado, Historiógrafo e Professor universitário.

Por saber da sua pesquisa e o grande devotamento às coisas da sua terra, e seu modo de escrever comprovado por documentos e fotografias é que escrevo sobre o seu valioso trabalho.

Dr. Simeão Ribeiro Pires foi no interior mineiro, o grande espaço de suas pesquisas. Ele atravessou rios, serras e desbravou sertões à procura da verdade e a história do valente homem norte-mineiro.



Roberto Carlos Morais Santiago
Cadeira N. 44
Patrono: Heloísa V. dos Anjos Sarmento

CACHAÇA
HAVANA & ANÍSIO SANTIAGO
74 ANOS DE HISTÓRIA

Tradicionalmente a produção de cachaça na região de Salinas se inicia no mês de junho e se estende até dezembro. O solo e clima da região propicia a produção de cachaça em fazendas escondidas em colinas e serras da região.

Nas últimas décadas a cachaça de Salinas alcançou tamanha projeção que é reconhecida como a Capital Mundial da Cachaça de Alambique“. O município virou sinônimo de cachaça e faz parte da
história da cachaça brasileira.

Recentemente ganhou um museu da cachaça construído pelo governo de Minas Gerais. Tem, ainda, um festival anual de cachaça que atrai grande número de turistas ávidos por degustar as mais de
sessenta marcas ali produzidas. Atualmente, o agronegócio da cachaça em Salinas já representa cerca de um terço da economia do município.

Em junho ao iniciar a produção nas fazendas da região, uma terá motivo especial para comemorar: a fazenda Havana, que fica no sopé da Serra dos Bois, entre os municípios de Salinas e Novorizonte.


Figura 1: Anísio Santiago, fundador da cachaça Havana
e maior ícone da história da cachaça brasileira


Figura 2: Rótulo antigo da cachaça Havana.


Figura 3: Marcas do clã Anísio Santiago.


Figura 4: Fazenda Havana.

A produção de cachaça na fazenda teve início em 1943 e, desde então, de forma ininterrupta, nunca deixou de produzir.

A fazenda Havana se transformou numa espécie de reduto sagrado da cachaça brasileira. Dali sai a marca de cachaça mais antiga de Salinas e região: a Havana. A projeção nacional e internacional da cachaça de Salinas teve início nesta fazenda de propriedade do produtor Anísio Santiago (1912-2012). A cachaça de Anísio Santiago fez tanto sucesso que estimulou outros fazendeiros seguirem o mesmo caminho.

Nestes setenta e quatro anos de produção de cachaça, o produtor Anísio Santiago criou método de alambicagem e envelhecimento da cachaça Havana, agora também com a marca Anísio Santiago, até hoje não decifrado pelos concorrentes.

E, mais, se tornou numa das marcas de cachaça mais caras e cobiçadas do país. Ainda assim, a produção continua restrita. A família de Anísio Santiago vem mantendo o mesmo método de fabricação forjado pelo patriarca. As marcas de cachaça Havana e Anísio Santiago são exemplo de sucesso. A longevidade da produção é prova inconteste disso. Bom para Salinas e para a cachaça brasileira. Marcas históricas como a Havana são importantes para o agronegócio da cachaça no Brasil. Serve de referência para outros produtores.

Ao longo dos anos de produção a cachaça Havana vem demonstrando que é possível fazer sucesso, ainda que a estrutura de produção seja pequena e que o alambique esteja instalado longe dos lugares de consumo.

A marca possui alto renome no país e no exterior como uma das mais tradicionais marcas de cachaça do Brasil. É apreciada por degustadores, especialistas e personalidades somente em determinadas ocasiões. É guardada como se fosse um tesouro dada a sua preciosidade. Osvaldo Mendes Santiago, filho de Anísio Santiago, atualmente coprodutor das cachaças Havana & Anísio Santiago e também produtor da cachaça Havaninha, comenta:

"A tradição e qualidade da cachaça Havana-Anísio Santiago permanecem. Sabemos da importância histórica da cachaça produzida em nossa fazenda. Não abrimos mão do legado deixado pelo nosso pai. Buscamos o centenário da nossa cachaça com esmero e capricho. Muita gente não entende, mas não buscamos riqueza. A fazenda Havana continua do mesmo jeito que ele deixou."

O jornalista Sidnei Mashio em visita que fez à fazenda Havana, fez o seguinte comentário:

"O universo da cachaça brasileira tem duas histórias distintas: uma antes e outra depois da fazenda Havana. Preservar a fazenda é manter intacta parte da história da cachaça brasileira."

É com esse espírito de preservação histórica que a cachaça Havana vem se mantendo no tempo e no espaço em busca do seu centenário. O tempo virou companheiro inseparável dessa magnífica marca de cachaça produzida com esmero e capricho na fazenda Havana, motivo de orgulho do povo de Salinas.

O produtor Anísio Santiago faleceu em 2002 aos noventa e um
anos, mas o seu feito continua sendo perpetuado pelos filhos. Um
exemplo de empreendimento familiar que se perpetua ao longo do
tempo num país em que a maioria das empresas fecham no primeiro
ano de funcionamento.

Em reverência ao feito de Anísio Santiago, centenas de reportagens em jornais, livros, mídia eletrônica e revistas vem registrando o feito histórico dessa marca lendária.

Alguns depoimentos:

“Historicamente, Anísio Santiago trouxe fama e prestígio para a
cachaça de Salinas através da Havana. É um dos maiores patrimônios culturais da nossa terra.” (JOSÉ ANTÔNIO PRATES, prefeito de Salinas).

“A fama da Havana atraiu para Salinas a atenção do Brasil e do mundo. A capital da cachaça tem o dever de reconhecer o seu maior benfeitor.” ISRAEL PINHEIRO FILHO, engenheiro, político e filho de Israel Pinheiro, ex-governador de Minas Gerais).

São poucos os produtores de cachaça no Brasil que conseguem manter a tradição e qualidade. Anísio Santiago soube produzir sem fazer concessões para o mercado e as tentações de aumentar o volume de produção.”
(MAURÍCIO MAIA, cachacier).

“Anísio Santiago é referência aos produtores de Salinas, pois viam nele um expoente no processo de produção de cachaça artesanal de qualidade. (ANTÔNIO EUSTÁQUIO RODRIGUES, produtor de cachaça em Salinas sob as marcas Boazinha, Saliboa e Seleta).

A cachaça Havana é a Ferrari das caninhas.” (MILTON LIMA, cachacier e estudioso da cachaça).

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REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA: SANTIAGO, Roberto Carlos Morais. O Mito da Cachaça Havana-Anísio Santiago. Belo Horizonte: Edições Cuatiara, 2006.



Téo Azevedo
Cadeira N. 90
Patrono: Romeu Barcelos Costa

O CERRADO É MINHA
INSPIRAÇÃO, A VIOLA,
O VIVER E A POESIA

Eu, Téo Azevedo, considero o Cerrado o tipo de vegetação mais importante do Brasil. Até mais do que a Floresta Amazônica. Porque o Cerrado é humilde e generoso, pois aceita dentro do seu espaço qualquer tipo de terreno, como Caatinga, Carrascais, Tabuleiro, Baixia, Gerais, Capoeira, Montanhas, Mata Seca, Veredas e até pedaços da Mata Atlântica; há sempre uma beiradinha para todos. Este mote fiz há alguns anos, em homenagem ao Cerrado do Norte
de Minas.

O CERRADO É MINHA INSPIRAÇÃO,
A VIOLA, O VIVER E A POESIA

Mote em decassílabo (martelo)
Na beleza que reina no Cerrado
No vento que sopra a brisa quente
No sol que desponta no nascente
No arroz cacheando no banhado

Na cantiga de um sapo embarreirado
No miolo da doce melancia
Na beleza que tem a cotovia
Na mudança de um camaleão.
O Cerrado é a minha inspiração
A viola, o viver e a poesia.

No sabor tão gostoso do pequi
No buraco cavado do tatu
No bote que tem o urutu
No passo manhoso do quati
Na couraça que tem o jabuti
Na mulher popular que é Maria
No fuso de renda que ela fia
No cantar mavioso do azulão.
O Cerrado é a minha inspiração
A viola, o viver e a poesia.

Na pescada de um martim-pescador
Na malícia que tem o carcará
No uivado manhoso do guará
Na elegância que tem um beija-flor
No carro de boi que é cantador
O candeeiro puxando lá na guia
Na água que canta melodia
No repente folclórico da canção.
O Cerrado é a minha inspiração
A viola, o viver e a poesia.

Na caatinga que tem o ribançã
No trinado vibrante do ferreiro
No aboio dolente do vaqueiro
No agouro do pio acauã

No orvalho que pinga na manhã
Na coruja mateira que só pia
Na bênção de ramo a simpatia
No esquipado suave do alazão.
O Cerrado é a minha inspiração
A viola, o viver e a poesia.

Na pelota que vira o tatu-bola
No pandeiro de um embolador
No verso que diz o cantador
No improviso tirado da cachola
No sonoro ponteio da viola
Na disputa que tem uma porfia
Na beleza que tem a cantoria
No martelo, galope ou quadrão.
O Cerrado é a minha inspiração
A viola, o viver e a poesia

Na sustança que tem nosso panã
No aroma gostoso do araçá
Na cantiga que tem o sabiá
Respondendo da mata o Jaçanã
Na mangueira canta o maracanã
Na grandeza que tem um novo dia
O canto tristonho de uma gia
No forró de latada, o poeirão.
O Cerrado é a minha inspiração
A viola, o viver e a poesia



Virgínia de Abreu e Paula
Cadeira N. 99
Patrono: Waldemar Versiani dos Anjos

Ruth Tupinambá Graça

Grande memorialista. Brindou-nos com textos deliciosos contando, com carinho e precisão, histórias de nossa cidade vividas por ela. Prima carnal dos meus pais. Minha prima em segundo grau, e por ser mais velha, tornou-se Tia Ruth. De olhos fechados eu a vejo em sua casa na rua Dr. Veloso, em casa da Titia Maria, aqui em casa, sem nunca afastar o sorriso dos lábios. Bonita a tia Ruth. Quando mocinha foi considerada uma das mais belas da cidade. Ganhou segundo lugar num concurso de beleza acontecido num parque de diversões. O primeiro lugar foi para minha mãe. Elas se pareciam! Casou-se com Armênio Graça, um marido incrivelmente elegante e fino. Teve diversos filhos. Não sei bem a razão torneime mais chegada aos meninos! Alberto Graça, o cineasta, e Armênio, o musicista, entre outras coisas. Tia Ruth não apenas recordava seu passado. Em suas crônicas era comum defender, e bem, as suas convicções.

E que delícia passear pela antiga Montes Claros através da sua narrativa. Eu marcava trechos do seu livro “Montes Claros Era Assim...” para comentar com minha mãe, sua leitora voraz. Passávamos horas entretidas com aquelas memórias saborosas. Minha mãe sempre acrescentando detalhes lembrados por ela. Foi assim, graças a Tia Ruth, que surgiu em mim a vontade de escrever sobre as memórias da minha mãe no seu tempo de menina na Rua de Baixo. –“Ruth era mais ligada a Aracy do que a mim, pela idade. Ela morou lá em casa, sabia? Para estudar. Os pais estavam morando onde não havia escola...” –“Espere aí, mamãe. Vou pegar caderno e caneta. Vamos fazer um livro!” O livro tornou-se realidade graças ao primo Fabiano de Paula que, sonhou comigo o mesmo sonho. Encontrou novos parceiros e escritores... inclusive a tia Ruth. Foi na sua sala inglesa (aquele recanto ficaria bem no condado de East Sussex ou Glouscestershire), que estive com ela pela última vez, numa tarde de pesquisas para o livro. Eu e Fabiano. Ela entusiasmada com o projeto, removendo nossas dúvidas, acrescentando informações. -“Que memória prodigiosa,
comenta Fabiano.” –“Fui criada com leite de cabra”, nos revela.

Serena nos deixou. Despediu-se dos filhos sem dramas, consciente de estar indo para um bom lugar. Não duvido que, no novo e belo mundo onde agora reside, escreva suas memórias desse plano grosseiro em que vivemos. Minha gratidão à Tia Ruth pelo que fez por nossa cultura e pelo muito que me ensinou.


Ruth Tupinambá Graça



Wanderlino Arruda
Cadeira N. 33
Patrono: Enéas Mineiro de Souza

COROGRAFIA MINEIRA

As pessoas são todas iguais, o que muda são os caminhos seguidos.
Jeff Guilherme

Sérios, organizados, tranquilos, firmes e plenos de cidadania foram
os caminhos do desembargador Antônio Augusto Velloso, de tão grata memória para os seguidores da história de Montes Claros e de todas as suas relações com a cultura brasileira. Um homem bom e honesto, ativo desde o início da juventude. Estudioso e trabalhador
em tempo integral.

Antes de dizer mais sobre o montes-clarense Antônio Augusto Velloso, nascido em outubro de 1856, na fazenda Lama Preta, de propriedade de seus avós, gostaria de dizer que este livro deveria ter sido escrito pelo historiador Dário Teixeira Cotrim, há mais de dois anos, para que pudesse ser prefaciado pelo nosso inesquecível Haroldo Lívio de Oliveira, em um dourado momento de felicidade. Haroldo adorava o desembargador e tinha orgulho da sua trajetória de latinista e homem culto, intelectual dos melhores.

Curso primário e primeiros rudimentos de latim, em Montes Claros, com o professor José Rodrigues Prates Junior, mesmo e completo nome do meu quase patrão Juca Prates, o criador do jucapratismo.
Humanidades e muito mais latim em Diamantina, no Colégio Inocêncio Campos, internato no Colégio Paixão em Petrópolis, exames preparatórios para o curso superior na capital paulista. E finalmente a famosa Faculdade de Direito de São Paulo.

Mestre competente na língua romana e em filosofia, foi professor em dois colégios e na Escola Americana mais tarde, mais tarde superfamosa como Instituto Mackenzie. Não suportando a vida de república e pensões, em razão de sua índole retraída, passou a morar sozinho em uma casa alugada no Largo do Arouche, tendo como auxiliar doméstico um velho e dedicado escravo, que mandara ir de Montes Claros. Uma vida quase monástica, rígida como a de um antigo leitor e copista beneditino, foi aos vinte anos, tido e reconhecido como o melhor tradutor das Odes de Horácio, o grande clássico de todos os tempos.

Ousado e sonhador, mesmo solitário, Antônio Augusto Velloso sempre honrou as tradições de cultura da sua cidade natal, os Montes Claros. Era consciente de um dos encantos das ideias de Leonardo Da Vinci: “Uma vez que você tenha experimentado voar, você andará pela terra com seus olhos voltados para céu, pois lá você esteve e para lá desejará voltar.” Viver cada hora do presente, mas andar sempre para o futuro, seja na realidade, seja nos sonhos.

Graduado em ciências jurídicas e sociais em outubro de 1897, o novo bacharel veio de volta pela estrada de ferro até Barbacena, onde o esperava animais e camaradas, mandados por seu pai, para trazê-lo por um caminho que passava por Ouro Preto e Diamantina. Ao todo, de São Paulo a Montes Claros mais de duzentas léguas. Claro que a chegada à terra natal foi a maior festa para um recém-formado, portador de canudo universitário. Festas de dois dias e duas noites, com direito a carne de sol, arroz com pequi, doces de casca de limão e de anéis e muitos foguetes.

Advogado, jornalista fundador do Correio do Norte, deputado e senador, o doutor Antônio Augusto Velloso, deixou tudo para se dedicar à função de Juiz de Direito em Ouro Preto e Belo Horizonte, e, mais tarde, desembargador no Tribunal da Relação, porque era no Direito que estava a sua maior vivência.

Bem faz o historiador Dário Teixeira Cotrim, também homem do Direito como Haroldo Lívio e como eu, os três sem exercício de advocacia, voltar toda a sua atenção para a vida do grande magistrado Antônio Augusto Velloso, um resgate histórico que valerá para sempre.

Parabéns, pois, ao Organizador de Corografia Mineira do Município de Montes Claros. E todos os agradecimentos do IHGMC e das Academias Montes-clarense e Maçônica de Letras do Norte de Minas pela escrita e publicação deste livro. Como bem disse o grande Pablo Neruda, a vida não começa quando se nasce, começa quando se ama. E é de amor à História e a todas as artes da Literatura que vive o baiano-montes-clarense doutor Dário Teixeira Cotrim. A ele, todos os nossos aplausos!


Wanderlino Arruda
Cadeira N. 33
Patrono: Enéas Mineiro de Souza

JANAÍNA

Falamos de nossa vida e de nossas experiências porque precisamos delas para nos firmarmos como personagens do mundo. Somos um abismo de ânsias pela verdade em todos os tempos. Aprendemos, sentados ao redor do fogo, desde o início dos milênios, a contar estórias, falar de experiências, lembrar de medos e desejos. Muito pequena a humildade - como homens ou mulheres - para confessarmos erros, reviver ciúmes, entender fracassos, relembrar dores. Dia aqui, dia ali, qualquer que seja o nosso nível intelectual ou social, acabamos tocados por fraca ou intensa alegria, por leves ou intensas dores. Somos, quase sempre, exemplos de resistência, seres de novas e velhas saudades, tudo coloridamente real no ato do viver e conviver. Enfim, somos humanamente humanos.

Linda e proveitosa para mim a experiência de leitura - com olhos de prefaciador - do livro JANAÍNA, do meu irmão e amigo Manoel Messias Oliveira, conterrâneo de sertão, companheiro de ideias e de muitos ideais. Viajar pelo livro foi um imenso prazer e um intenso trabalho, ao mesmo tempo dedicada tarefa na Linguística em face mundo Bahia-Minas, principalmente por estas bandas do médio São Francisco. São tantos os falares, tantas as palavras, tão marcante o subdialeto, que só quem nasceu por cá, sabe avaliar e compreender. Manoel Messias é tão consciente do vocabulário de sua meninice e juventude na beira rio, tão seguro tem sido no seu emprego em romances, que autores e diretores novela Velho Chico, da TV Globo, pediram-lhe autorização para usá-lo nas composições dos diálogos, fator de autenticidade, fruto de sucesso e tanta marca de sertão.

Romancista nato, narrador competente, mestre nas descrições e nas análises do ser e do estar, meu confrade no Instituto Histórico e Geográfico de Montes Claros e na Academia Maçônica de Letras do Norte de Minas, chega a ser, ao mesmo tempo, fotógrafo e pintor, psicanalista do pensar e do agir, ainda afeito à sua arte de interrogar e receber confissões tão próprias em sua antiga função de sargento da PMMG, e dos muitos anos de delegado na Polícia Civil. Um verdadeiro doutor na ciência de conhecer e reconhecer gestos do corpo e de alma de jovens e velhos que passaram por suas salas de gestor da ordem pública. Perfeito redator e relator de fatos e acontecências, capaz de colocar no papel o que muitos colegas não fazem nem em pensamento. Daí a maestria na composição e na feitura do romance.

Quanto às personagens – Janaína, seu Pacheco, D. Marcelina, Abílio, Henrique, Marta, Otaviano - o melhor para identificá-las é o uso das palavras próprias e apropriadas ao idear e ao falar de cada um. Para mim é como se eu também estivesse por lá, pelo lado de dentro e pelo lado de fora do balcão da casa comercial que vendia de um tudo, nas varandas, na cozinha e no quintal das casas da cidade e da fazenda, vendo e respirando as poeiras das ruas e das estradas, degustando sabores, deleitando-me com os coloridos, encantando-me com os barulhos e as musicalidades das conversas de meninos e de adultos. Saudosos os costumes interioranos, as considerações tidas para viventes mais ou menos situados no mandar e no obedecer, embora sempre afeitos ao um mínimo de civilidade, poucas as exceções em alguma violência ou mania de fuxicos. Nada que não pudesse acontecer em pequenas cidades como São João do Paraíso, onde nasci, e em Salinas, Mato Verde e Taiobeiras, onde também vivi, aprendi a ler e escrever e naveguei em primeiras e muitas leituras. Nada que não pudesse estar no livro “Na venda do meu pai”, perfeita descrição dos bons tempos de infância de Luiz de Paula Ferreira na sua amada Várzea da Palma.

Toque final, com alguns exemplos para dar água na boca dos felizes leitores de JANAÍNA, expressões e vocábulos que só sabem deixar saudades: mercadorias encalhadas, coração do tamanho do mundo, medida de feijão, libra de toucinho, enganar o estômago, dependurado a tiracolo, mulato pachola, soverter rua afora, mulher separada, carestia, goela seca, tripa murcha, algibeira, mantença, lida sem descanso, escarafunchado, cabeçada, lenço na cabeça, xale, cacareco, bodum, perrengue, adjutório, frincha, bestagem, caneta tinteiro, bruaca, sarapatel, andar zanzando. Lindo o uso de algodão como tecido, pena como peça de escrita, jornal como salário do dia, jardineira como ônibus, apear como descer, de-comer como comida, ladino como inteligente, zonzo como tonto, insosso como sem sal, facultativo como médico, boticário como farmacêutico, maroteiro como mau pagador, vendeiro como dono do comércio, gato cheira e cobre de terra como aquilo que minha sogra chamava “daquilo que Luzia escondeu atrás da horta”.

Salve, salve, para o lindo romance de Manoel Messias, que merece todos os parabéns, aqui e nas beiradas do São Francisco!



Yury Vieira T. de Lélis Mendes
Cadeira n.º 96
Patrono: Tobias Leal Tupinambá



Daniel Oliva T. de Lélis
Cadeira n.º 83
Patrono: Cônego Newton d’Ângelis

 

Capitão Camilo
Cândido de Lélis

A história nem sempre é justa com aqueles que dedicaram uma vida inteira à causa pública. Muitas vezes figuras proeminentes, cujo destaque ultrapassa as fronteiras regionais, têm sua memória esquecida pela coletividade, fazendo com que novas gerações não tenham contato com fatos e passagens marcantes do desenvolvimento de um povo ou de uma região. Perde-se assim, a oportunidade de aprofundamento do conhecimento do passado.

Em Montes Claros e região, há com certeza exemplos de homens e mulheres valorosos cujas memórias, ninguém sabe explicar como e nem por que, foram relegadas ao esquecimento, ou pelo menos não tiveram a interpretação ou espaço dado à sua importância, por quem se dispôs a escrever a História. O trabalho do historiador, do memorialista, é vital para que esses desvios históricos sejam corrigidos.

Assim sendo, há de se resgatar da galeria dos injustiçados, a figura marcante do Capitão Camilo Cândido de Lélis, cuja atuação se deu em vários níveis, militar e político, e em várias cidades do norte de Minas Gerais.

Não é só a profícua carreira militar e política que o fazem especial e merecedor do destaque na galeria de figuras marcantes do Estado de Minas Gerais. A personalidade do Capitão Camilo Cândido de Lélis é sobremaneira acentuada e faz desse homem quase uma lenda.

Lamentável que a isenção tenha faltado a historiadores que fizeram citações de sua existência mas não tiveram a sensibilidade de interpretar essa figura única, à frente de seu tempo, desprovido de qualquer vaidade, culto, alheio às convenções sociais, excêntrico ao extremo, possuidor de dons artísticos. Enfim, uma personagem da história regional, de múltiplas facetas e que agora começa a ser justiçado pela História.

Comemorou-se no dia 30 de dezembro de 2015 a efeméride do Centenário de Morte daquele que foi um dos grandes nomes da política, cultura, segurança pública e militarismo do Norte de Minas durante os séculos XIX e XX. Trata-se do Capitão Camilo Cândido de Lélis, cujo nome, para que justiça seja feita, está por merecer o
patronato de alguma via pública ou órgão público nos Municípios de Montes Claros, Turmalina, Brasília de Minas e/ou Coração de Jesus, todos em Minas Gerais. Sua biografia encontra-se imortalizada na obra “Efemérides montesclarenses: 1707-1962”, de Nelson Viana, dentre várias outras.

O Capitão Camilo Cândido de Lélis foi um Militar, nascido a 15 de julho de 1845 no Município de Minas Novas (MG), que se tornou célebre como Herói da Guerra do Paraguai (1864-1870). Foi encarregado das Colletorias1 do Norte de Minas, e organizou o sistema

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1 - Lélis, Camilo Cândido de. (1845-1915). Notas Sociaes. Fallecimentos. MG, 5 jan.
1916, p. 3. Disponível na “Plataforma Hélio Gravatá” do Arquivo Público Mineiro. No mesmo sentido, dá nota o Cônego Newton D’Ângelis, em suas Efemérides Rio-Pardenses, que o Capitão Camilo foi coletor em Rio Pardo de Minas em 1889.

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Tributário de Montes Claros (MG)2, onde foi Vereador por diversas legislaturas e chegou a presidir a Câmara Municipal, tornando-se o 27° Agente Executivo (Prefeito) do Município, entre 1893/1894. Presidiu as Sessões de Instalação dos Municípios de Sant’Anna de Contendas (atual Brasília de Minas), em 1894, e de Inconfidência (atual Coração de Jesus), em 1912, onde foi o primeiro Presidente provisório3 e vereador na primeira legislatura (1912-1914) de sua Câmara Municipal, tornando-se o 1° Agente Executivo (Prefeito) do Município, entre maio e junho de 1912. Foi, ainda, delegado de polícia em diversos Têrmos em Minas Gerais, além de Chefe do Destacamento Militar de Montes Claros (sede da 4ª Circunscrição Militar), Comandante da 5ª Circunscrição Militar (com Sede em Paracatu) e Comandante da 3ª Circunscrição Militar (com Sede em Diamantina).


Ilustração de Marcelo Lélis

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2 - Lélis, Camilo Cândido de. (1845-1915). Notas Sociaes. Fallecimentos. MG, 5 jan.
1916, p. 3. Disponível na “Plataforma Hélio Gravatá” do Arquivo Público Mineiro.
3 - Entre maio e junho de 1912, sendo sucedido pelo Cel. Francisco Ribeiro.

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Filho do Capitão Paulo Cândido de Souza e de Dona Benvinda Carolina de Souza4, ambos professores no Distrito de Piedade (hoje Turmalina), com os quais teve as primeiras lições. Seu pai, o Capitão Paulo Cândido de Souza, era membro do Partido Liberal e ocupou, por diversas vezes, os cargos de Vereador da Câmara Municipal de Minas Novas e de Delegado do Termo de Minas Novas5, além de ter sido Eleitor Especial da Freguezia de Piedade, Porta-Bandeira do 6° Batalhão de Reserva da Guarda Nacional em Minas Novas, Fabriqueiro da Paróquia de Nossa Senhora da Piedade, e Negociante de Secos e Molhados da mesma Freguezia e Districto.

A família Cândido de Souza era proeminente em Minas Novas e particularmente legou a Montes Claros dois prefeitos, além do próprio Capitão Camilo Cândido de Lélis (27º), seu primo carnal, o Ten. Cel. Joaquim Costa (33º)6.

Em março de 1857, ainda mancebo, o jovem Camilo já demonstrava seu espírito irrequieto e aventureiro, ao assentar praça, por ato do Dr. Herculano Ferreira Penna7, no 1º Batalhão de Minas Gerais, em Ouro Preto, para servir à gloriosa polícia mineira. Demonstrava com esse gesto, vocação para a carreira militar, como fosse de se esperar de um membro da nobre e destemida Família “Cândido de Souza”.

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4 - Católicos fervorosos, seus pais deram-lhe, na pia batismal, o nome de Camilo Cândido de Lélis, em homenagem ao santo do dia. Carregava o infante ainda o nome de família, “Cândido”, componente do patronímico da tradicional família dos “Cândido de Souza”, verdadeira dinastia de homens dados às armas, mas também às letras; à tribuna, mas também aos negócios; homens aventureiros que se distinguiram quer como negociantes, quer como fazendeiros, quer como militares, quer como políticos.
5 - Conforme colhemos notas, p. ex., das edições de 14 de setembro de 1882 do jornal “A Província de Minas” (órgão oficial do Partido Conservador na província) e de 12 de dezembro de 1881 do jornal “A Actualidade” (órgão oficial do Partido Liberal na província).
6 - Um dos donos da Fábrica de Tecidos do Cedro, era filho do Coronel José Antônio da Costa (02/10/1825 – 15/03/1913), residente em Minas Novas, onde foi vereador e o primeiro tabelião de notas; com Dona Maria Josefina de Souza (filha do Capitão Fulgêncio Cândido de Souza e dona Maria Beatriz de Sena; portanto, irmã do Capitão Paulo Cândido de Souza, este pai do Capitão Camilo). Vide: FERREIRA, Valdivino Pereira. Genealogia Norte Mineira: resumo genealógico das grandes famílias nortemineiras e do sudoeste baiano, v. 1, Turmalina: Edição do autor, 2003.
7 - Natural de Diamantina (MG) e então presidente da Província de Minas Gerais, era do círculo social de sua parentela.

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Em 13 de abril de 1867, depois de servir por 10 anos à excelsa Polícia mineira, Camilo Cândido de Lélis se desliga da corporação, apresentando-se, então, como voluntário ao 17° Batalhão de Infantaria, do Corpo de Voluntários da Pátria, quando era Chefe de Operações o Marechal Luís Alves de Lima e Silva, então Marquês (e depois Duque) de Caxias. E, como Tenente, parte para a Guerra do Paraguai, incorporando-se às forças enviadas pela Guarda Nacional sediada em Minas Novas sob o comando do Coronel José Bento Nogueira Góes (o “Zebentão”), seguidas para o Mato Grosso. De Piedade de Minas Novas (Turmalina), seguiram, em companhia do Coronel Zebentão e do Tenente Camilo Cândido de Lélis: o capitão José Leonardo da Rocha Pompéu (Juca Leonardo), de sua parentela materna; o capitão Joaquim Pinheiro Torres, o tenente João Pinheiro Torres Júnior, o tenente Tristão Aarão Ferreira dos Santos, o tenente Patrício Pereira Freire, o tenente Fabrício Pereira Freire, o sargento Antônio Soares Falcão, e o sargento Joaquim Lopes Barbosa, todos acompanhados de quatro escravos, que se incorporaram ao Regimento 21.

Uma Brigada composta de efetivo mineiro, comandada pelo tenente-coronel Antônio Enéias Gustavo Galvão8, era formada pelo 17º Corpo de Voluntários da Pátria, Batalhão 21 de Infantaria e policiais mineiros, com um efetivo de mais de mil soldados.

Distinguiu-se, o jovem Camilo, no conflito, onde lutou com bravura e heroísmo, tendo realizado notáveis feitos, realmente extraordinários, praticados quase diariamente, durante a longa campanha, oportunidade na qual participou do famoso episódio imortalizado como “A Retirada da Laguna”9 pela pena de Taunay, também um de

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8 - Filho do Coronel José Antônio da Fonseca Galvão, veio a tornar-se marechal do Exército Brasileiro e Barão de Rio Apa.
9 - Sob o comando do coronel Carlos de Morais Camisão.

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seus protagonistas. Chegou a matar em combate um Porta-Bandeira do Exército Paraguaio, a salvar a vida de seu capitão, também em combate; e, mais do que tudo isso, o que realmente lhe rendeu todos os louros conquistados na Campanha e que para sempre lhe acompanhariam em sua vida, a salvar a vida do Imperador Dom Pedro II. Trata-se do famoso episódio em que perigou a vida do Imperador Dom Pedro II, quando visitando os soldados em Campanha, um soldado insatisfeito invadiu a barraca onde ele dormia e quase degolou nosso imperante que dormia candidamente.

É que, sem víveres para o sustento da tropa, afetada pela cólera, o tifo, e pelo beribéri, a coluna do Exército Brasileiro sofreu constantes ataques da cavalaria paraguaia, que utilizou táticas de guerrilha, infligindo perdas severas aos brasileiros, inclusive da intendência que levaria víveres para o sustento da tropa, que passou fome e toda sorte de necessidades. Um dos grandes problemas enfrentados pela Expedição ao longo dos quatro anos foi a constante falta de alimentos e fardamentos e também a ausência de uma melhor logística por parte do Império. Desse modo, logo no início da jornada, era grave a dificuldade de abastecimento de víveres. Vale lembrar, por esclarecedor, o que diz Taunay: “À medida, porém, que nos íamos aproximando do núcleo de convocações, as deserções se acentuavam do modo mais significativo, pondo cada qual em prática o rifão muito em voga, naqueles tempos da campanha do Paraguai: Deus é grande, mas o mato
ainda maior!”.

O meu capitão Camilo é diferente: é o bravo soldado da campanha do Mato Grosso. Esteve na retirada da Laguna, comeu o couro dos arreios com seus comandados, salvou-se por um milagre da epidemia do cólera morbus que dizimou a tropa, graças aos laranjais
nativos das selvas matogrossenses.

Tudo isso é confirmado pela História, mas quando ele contava que os soldados comiam capim, ninguém acreditava. Pois comeram. Havia nos campos de Mato Grosso, dizia ele, um capim cujo pendão tinha um talo adocicado.

Os soldados, mortos de fome, mesmo em forma não se mantinham quietos, abaixavam-se a todo momento, para arrancar o pendão saboroso.

Afim de não prejudicar a disciplina o Coronel Camisão via-se obrigado a ordenar: “Debandar para pastar”. E era então com grande alvoroço que a tropa faminta se espalhava pela campina verde10.

Para elevar o moral das tropas, que sofreram com a fome e falta de víveres, dando-lhes nova energia e motivação, quis Dom Pedro II visitá-las disfarçadamente, como se soldado fosse, já que não tivera apoio de seus assessores (nem do Conselho de Estado, nem do Parlamento) em seu intento. Teve, no entanto, sua barraca invadida por um soldado insatisfeito com o governo imperial, que gastava parte considerável de seu orçamento com as tropas em combate, elevando o déficit público e a dívida com o estado bretão em quantias astronômicas, assunto glosado com frequência pelos jornalistas da Côrte, e pelos republicanos baianos, mineiros e paulistas. O soldado insatisfeito entrara, às escondidas, com uma adaga, na barraca de repouso do imperante que dormia candidamente, sendo surpreendido incontinente pelo jovem oficial de Infantaria, Camilo Candido de Lélis, à altura com apenas seus vinte e poucos anos11, que foi logo desembainhando sua rapieira imperial e travando intensa luta com o traidor, que sacara espada encontrada na barraca do monarca, mas que, após árduo confronto, sucumbiu aos pendores militares de Camilo, não conseguindo resistir ao ser atingido mortalmente por aquele que viria a se tornar

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10 - TEIXEIRA, Antônio Augusto. Um caso antes de noventa. Belo Horizonte: O Lutador, 1975, p. 108-109.
11 - Na oportunidade, estavam Camilo Cândido de Lélis e seu parente Juca Leonardo jogando truco e contando piadas em sua barraca de repouso quando, ouvindo um barulho, este último, hierarquicamente superior na escala militar, ordenou, debochadamente, a Camilo que fosse verificar o que seria, pois “soldado raso deve obedecer”. Bendita seja essa ordem que mudou os rumos da vida do tenente Camilo.

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um dos grandes Próceres da Guerra do Paraguai, devido à sua brava e heróica atuação em inúmeras batalhas da Campanha. Para não alardear o fato e arriscar por em choque a legitimidade da necessidade da Guerra contra o Paraguai e do próprio regime monárquico – e por estar o imperador no campo de batalha sem a necessária ciência e anuência do Parlamento – tal episódio fora severamente ocultado, inclusive não havendo, sequer, julgamento militar do soldado-traidor, mesmo porque este já tivera sido morto pelo Tenente Camilo, que sagrou-se verdadeiro Herói da Guerra do Paraguai (1864-1870). Imediatamente promovido a Capitão, após ciência ao Conde d’Eu (Príncipe Gaston Luiz Filipe)12, pelo próprio Imperador Dom Pedro II, de quem se tornou íntimo amigo a partir de então, e que devotou-lhe verdadeira amizade tendo-o na mais alta estima e distinta consideração (em homenagem aos mais notáveis feitos de bravura), o doravante Capitão Camilo Cândido de Lélis, tido como Oficial Distintíssimo, teve o Peito Enobrecido com diferentes Condecorações ganhas nas Batalhas do Paraguay, e passou a ocupar um posto de oficial honorário no Exército, o qual por mais orgulho e vaidade que pudesse despertar,
não mexia com os brios desse homem, que se matinha o mesmo, sem nenhuma afetação ou qualquer coisa que mudasse seu espírito, acima das convenções.

O Capitão Camilo Cândido de Lélis recebeu duas provas inequívocas que ilustram seu nome e enobrecem a sua descendência, intimamente ligadas à sua profissão e a sua brilhante carreira na Chefia de Polícia de Minas (no império e na república), como delegado de polícia e militar de comprovada probidade. A primeira foi receber as honras de tenente honorário do Exército Imperial por determinação do Sr. Ministro da Guerra. A segunda foi a outorga, pelo Imperador D. Pedro II, da comenda da Ordem da Rosa no grau de oficial13.

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12 - Marido da Princesa Isabel e Comandante das Forças Aliadas (união militar do Império do Brasil e das repúblicas da Argentina e do Uruguai contra as Forças Beligerantes de Solano Lopez).
13 - FERREIRA, Valdivino Pereira. Capitão Camillo Cândido de Lélis. Tribuna dos Geraes, Norte de Minas, Ano I, número 1, setembro de 2014. Memórias dos Geraes, p. 6.

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Aqui se faz importante ressaltar que as honrarias recebidas e as passagens da guerra foram contadas diversas vezes pelo Capitão Camilo Candido de Lélis ao longo de sua vida. E assim, geração após geração, essas mesmas histórias foram recontadas entre seus descendentes, até os dias atuais. Os pormenores, que aqui se resgata, se perderam no passar impiedoso do tempo. Mas a essência do heroísmo, do espírito rebelde e aventureiro do capitão, nunca deixou de ser valorizado e reverenciado por aqueles que carregam nas veias o seu sangue. Essas passagens também são corroboradas pelo pesquisador Valdivino Pereira Ferreira, do Instituto Histórico e Geográfico de Minas Gerais (IHGMG), que sobre elas fez remissão: “Segundo uma versão difundida pelos descendentes do major Licínio de Castro, mineiro de tradição radicado em São José do Rio Preto (SP) (...) Essa versão também a ouvi diversas vezes contadas por minha avó materna, dona Cecília de Paula Godinho, ótima causeur e memorialista”14.

O 17º Batalhão retornou a Ouro Preto no dia 6 de março de 1870, comandado pelo tenente-coronel José Maria Borges, onde foi recebido com festas populares e grandes cerimônias, que culminaram com a entrega da Bandeira deste Batalhão ao Presidente da Província na Catedral de Mariana.

O Capitão Camilo Cândido de Lélis, a partir de então, passou a gozar de incontestável e unânime respeito, por onde quer que fosse. Laureado com a admiração geral, passou a fazer parte da Elite Política regional norte-mineira e do Círculo Social das elites políticas provincial e imperial. Foi, com efeito, a partir de então, Delegado de Polícia em diversos Termos, dentre os quais podemos citar: Rio Pardo de Minas, Montes Claros, Juramento, Minas Novas, Turmalina, Itamarandiba (antiga São João Baptista), Teófilo Otoni (antiga Filadélfia), Araçuaí, São João d’El Rei, São Francisco, Diamantina, Itabira15, Januária,
Brasília de Minas e Coração de Jesus.

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14 - FERREIRA, Valdivino Pereira. Capitão Camillo Cândido de Lélis. Tribuna dos Geraes, Norte de Minas, Ano I, número 1, setembro de 2014. Memórias dos Geraes, p. 6. 15 - Onde gozava da amizade do coronel Antônio Menezes de Freitas Drummond, avô paterno do poeta Carlos Drummond de Andrade.

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No âmbito político gozava o capitão Camilo de elevadíssimo conceito eleitoral no Norte de Minas, de modo que, sem o qual, nenhum pretendente à chefia política da Província poderia cogitar a conquista eleitoral da zona norte-mineira. Era tamanha a sua influência na Província de Minas Gerais, sobretudo na região setentrional; isso, para não dizer da influência direta que possuía na Côrte, sobretudo pela sua ligação com o Imperador, conquistada na Campanha do Paraguai e perpetuada pelo convívio e amizade que possuíam, regada pelas obrigatórias visitas que fazia à Sua Majestade Imperial, sempre
que ia ao Rio de Janeiro, motivo que fosse.

Foi, ainda, membro da Comissão de Sindicância (1908) da Liga Operária Beneficente, em Montes Claros; Chefe do Destacamento Militar de Montes Claros (sede da 4ª Circunscrição Militar); Comandante da 5ª Circunscrição Militar (com Sede em Paracatu);
Comandante da 3ª Circunscrição Militar (com Sede em Diamantina); Tenente Honorário do Exército Imperial Brasileiro; Oficial da Guarda Nacional; Capitão do Corpo de Polícia (Polícia Militar de Minas Gerais); Veterano da Guerra do Paraguai (1864-1870); Tenente- Coronel Comandante do Corpo Policial, Membro da Banda de Músicas do Corpo Policial, além de Delegado em diversos Termos.

Membro do Partido Liberal, o capitão Camilo Cândido de Lélis foi um dos fundadores do Club Abolicionista, fundado a 15 de agosto de 1884 no Paço da Câmara Municipal de Ouro Preto, e instalado solene e festivamente nas comemorações do dia 7 de setembro do mesmo ano.

O município de Sant’Anna de Contendas (atual Brasília de Minas) foi criado em 1890. Sem dúvida alguma, motivo de alegria e júbilo para os habitantes. Mas quatro anos haviam se passado sem que a instalação de fato acontecesse. Foi necessária a insistência e interferência de várias pessoas para que o processo se tornasse realidade. O esforço de muitos deve ser lembrado e reconhecido, mas também de um homem que carregava em si um espírito libertário e emancipador, que foi o prefeito de Montes Claros16, Capitão Camilo Cândido de Lélis, que não mediu esforços junto ao governo estadual para apressar a concretização do sonho daquele povo. O Capitão Camilo, figura memorável, tinha diversas amizades em Sant’Anna de Contendas, entre elas as de Theóphilo Lopes Silqueira e Antônio Vieira de Araújo, e não colocou óbice à sua plena emancipação, ao contrário, fazendo gestão para a rápida implantação do novo município, que se deu em 02 de janeiro de 1894. As eleições para o primeiro agente executivo municipal (prefeito) e para a primeira Câmara Municipal (16 de novembro de 1893) e a Sessão de Instalação do Município (2 de janeiro de 1894) foram presididas pelo Capitão Camilo Candido de Lélis:

A instalação do município se deu a 2 de janeiro de 1894. Antes, porém, a 16 de novembro de 1893 se realizava, sob a presidência do Capitão Camilo Cândido de Lélis, ao tempo servindo de presidente da Câmara de Montes Claros, a apuração das eleições para presidente da Câmara e Agente Executivo de Contendas, assim como dos vereadores do novo Município e especiais de Boa Vista e Campo Redondo17. Igualmente, presidiu, entre os dias 24 de maio a 1° de junho de 1912, as três sessões preparatórias e a Sessão Solene de Instalação da Câmara Municipal de Inconfidência (atual Coração de Jesus), sendo um dos grandes próceres da Emancipação do Município, onde foi Delegado, Vereador e primeiro Presidente (provisório) da Câmara Municipal, e portanto 1º Agente Executivo Municipal (Prefeito) daquela municipalidade, durante nove dias, quando foi sucedido pelo seu amigo, o Cel. Francisco Ribeiro dos Santos18.

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16 - Naquela época, Agente Executivo Municipal.
17 - BRASIL, Henrique de Oliva. De Contendas a Brasília de Minas. 1977, p. 31.
18 - “A respeito do Capitão Camilo, conta-se o pitoresco episódio: O coronel Francisco Ribeiro dos Santos, Presidente da Câmara e Chefe do Executivo Municipal, seu amigo e admirador, convidou-o a passar alguns dias na capital da República, oportunizando, assim, ao capitão, matar as saudades dos sítios de sua predileção na grande metrópole,
onde sempre costumava ir após a demorada vitória contra Solano Lopez” (MACEDO, Ubirajara Alves de. Coração de Jesus: sua lenda, sua história, seu folclore).

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O Capitão Camilo Cândido de Lélis, veterano da Guerra do Paraguai, agraciado com a patente de capitão pelo Imperador Dom Pedro II, de quem era íntimo amigo, presidiu no dia 1° de junho de 1912 a sessão solene que proclamou a emancipação do município de Inconfidência, o Coração de Jesus de hoje, voltando a assumir a cadeira de vereador na Câmara Municipal e a prestar serviços à comunidade nascente19.

Finda a Guerra do Paraguai (1864-1870), o Cap. Camilo foi destacado para São João d’El Rei, onde se casou com dona Jesuína. Nomeado, por ato do Govêrno, de 13 de novembro de 1886, Comandante do destacamento de Montes Claros, transferiu-se para esta cidade, sendo logo, designado para as funções de Delegado de Polícia20.

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19 - MACEDO, Ubirajara Alves de. Coração de Jesus: sua lenda, sua história, seu folclore (no prelo).
20 - Cronologia da Vida Política do Capitão Camilo em Montes Claros:
A 13 de novembro de 1886, por ato do Govêrno, o cap. Camilo Cândido de Lelles é nomeado Comandante do destacamento da cidade de Montes Claros.
A 09 de novembro de 1892, instala-se a nova Câmara Municipal de Montes Claros, sendo que o vereador do distrito dos Morrinhos, Josefino de Oliveira França, perdeu o mandato por haver aceitado um emprêgo federal, sendo substituído pelo cap. Camilo Cândido de Lélis.
A 21 de março de 1893, sob a presidência do cel. Celestino Soares da Cruz, presta juramento e toma posse do cargo de vereador à Câmara Municipal de Montes Claros o cap. Camilo Cândito de Lélis, eleito pelo distrito de Morrinhos (hoje Miralta).
Exerceu o capitão Camilo Cândido de Lélis, entre os dias 09/10/1893 e 12/02/1894, a presidência da Câmara Municipal e a Chefia do Executivo Municipal de Montes Claros, sendo sucedido pelo Dr. Honorato José Alves a partir do dia 13 de fevereiro de
1894.
A 16 de novembro de 1893, sob presidência do cap. Camilo Cândido de Leles, servindo de Presidente da Câmara Municipal de Montes Claros, procede-se à apuração dos votos das eleições para Agente Executivo e Presidente da Câmara Municipal de
Contendas, assim como dos vereadores gerais do novo município e especiais dos distritos de Boa Vista e Campo Redondo. A 2 de janeiro de 1894, sob a presidência do cap. Camilo Cândido de Lélis, é instalado o Município de Sant’Anna de Contendas (a
Brasília de Minas de hoje), desmembrado do de Montes Claros.
A 24 de julho de 1896, em sessão da Câmara Municipal de Montes Claros, sob a presidência do dr. Honorato José Alves, toma posse do cargo de vereador geral, pelo

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O casal, Camilo e Jesuína, não tiveram filhos. Apesar de ansiarem por um herdeiro, a falta deste nunca foi motivo para discórdia ou brigas entre o casal. Embora fosse um homem excepcional, uma figura marcante, o lado humano e falho do Cap. Camilo se mostrava quando o assunto era a fidelidade conjugal, virtude que não possuía.
Mas apesar de tudo, tal questão também não foi motivo de brigas entre os dois, uma vez que as escapadelas do marido se davam de modo a não “magoar” ou “ferir” sua santa esposa, até o dia em que o descuido mudou o destino de ambos. Bendito seja esse mau passo, que ensejou anos mais tarde o nascimento dos autores destas linhas.

Dono de um bom humor fantástico, muitas vezes ferino, piadista inveterado, boêmio, o Capitão Camilo Cândido de Lélis também possuía outros dons, dentre eles a música. E foi tocando violão que mudou os rumos de seu casamento e de sua vida, às margens do rio Canabrava...

Quando exercia suas funções de Delegado de Polícia em Coração de Jesus, lá pelos primeiros anos da década de 1880, se encantou pela jovem Adelaide Odília de Medeiros, filha de dª Bernardina Felippina de Oliveira com o maior fazendeiro, comerciante e chefe político regional, o Cel. Cypriano de Medeiros Lima (1829-1891), Tenente-Coronel da Guarda Nacional e depois Barão de Jequitahy (25/09/1889), dono da maior fortuna do Norte de Minas e o maior fazendeiro da Província, além do maior proprietário de escravos.

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distrito da cidade (Montes Claros), o cap. Camilo Cândido de Lélis; e de Juiz de Paz, também pelo distrito da cidade, Rodolfo Cândido de Sousa.
A 1° de Janeiro de 1905, instala-se a nova Câmara Municipal de Montes Claros, tendo na presidência o vereador mais idoso, cap. Camilo Cândido de Lélis, que conduziu a eleição para formação da Mesa, sendo eleito para Presidente da Câmara, o dr. Honorato José Alves; para Vice-Presidente, o major Joaquim José Costa que, após a eleição, assumiu
a Presidência. O dr. Honorato Alves tomaria posse a 23 de janeiro de 1905.
A 1° de junho de 1912, sob a presidência do Capitão Camilo Cândido de Lélis, é instalado o Município de Inconfidência (antigo e futuro Coração de Jesus), desmembrado do de Montes Claros.

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A jovem Adelaide, passando temporada na casa de suas primas em Coração de Jesus, se deixou levar pela sedução do Cap. Camilo de Lélis, o que resultou numa gravidez escandalosa para a época. Além de ser filha de quem era a moça se envolveu com um homem casado, também de destaque regional. A questão da honra se fazia presente e acirrava os ânimos, razão pela qual mandar matar era mais um ato de bravura e virtude do que propriamente um crime comum. “Lavar a honra” era uma questão eivada de simbolismos e significado. O Barão de Jequitahy, sabedor da “ofensa moral” sofrida pela filha, e mais tarde sabendo do estado civil do pai de seu futuro neto, se enfureceu e chegou a maquinar um atentado contra a vida do Capitão Camilo de Lélis. A ação malograda se deveu ao ocaso do destino. Um dos dois jagunços contratados para a feita foi picado de cobra em plena tocaia, resultando em morte deste. O segundo jagunço, deveras um homem dado a superstições, atribuindo a perda do comparsa a um castigo divino, resolve purgar seus pecados contando em pormenores seu intento ao Capitão Camilo, bem como quem foi o mandante da ação.

O Capitão Camilo então, ciente de que sua vida corria riscos, arquitetou uma solução honrosa e inteligente para o problema. Em conversas reservadas com o Barão de Jequitahy, Camilo ofereceu seu irmão, Rodolfo Cândido de Sousa21, para casar-se com a jovem Adelaide22, reparado assim seu “erro”, mas com a condição de que uma vez nascida a criança, a mesma seria criada por ele e por sua esposa, Dona Jesuína. E assim foi feito. Desnecessário dizer que o acordo foi aceito, e um opulento dote foi oferecido ao noivo.

Aqui não há o que se pensar em oportunismo, ou qualquer outro subterfúgio menos nobre. Essa engenharia montada e colocada em prática não visava ludibriar quem quer que seja. Todos tinham noção dos seus papéis e os aceitaram e desempenharam de forma consciente,
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21 - Cometa (comerciante) e juiz de paz em Montes Claros. Também foi professor e capitão.
22 - Que passou a assinar “Adelaide Odília de Medeiros e Sousa” ou “Adelaide de Souza Medeiros”.

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livre e desimpedida. O que aqui aconteceu foi a demonstração de honra por parte da família Medeiros, que precisava de reparação. E demonstração mais ainda honrosa por parte da família Cândido de Souza, que não se furtou em encontrar uma solução e cumprir o que foi acordado. Sem mencionar o exemplo de amor fraterno e companheirismo entre os irmãos Camilo Cândido de Lélis e Rodolfo Cândido de Souza. Vale acrescentar que após o nascimento do pequeno (ocorrido a 28 de fevereiro de 1884), o infante Álvaro Augusto de Lélis, o casal Rodolfo e Adelaide viveram felizes e tiveram mais dois filhos (primos-irmãos de Álvaro):
1 - Egídio de Sousa Medeiros23 (1896-1950);
2 - Jésus Chateaubriand de Souza24 (1902-1960), conhecido como “Chatô”.
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23 - Nasceu em Montes Claros (MG), em 01/09/1896, filho de Rodolfo Cândido de Sousa e Dona Adelaide Odília de Medeiros. Na mesma cidade foi batizado, na igreja Matriz, em 29/01/1897. Iniciou seus estudos na terra natal e veio a
diplomar-se em farmácia, em Belo Horizonte, em 25/12/1918. Depois de breve período trabalhando para a firma Dolabela, em Granjas Reunidas, abre uma farmácia em Bocaíuva, em 28/11/1920. Casou-se em 29 de Janeiro de 1922, em Bocaiúva, com Dona Eutália Gomes Medeiros, de cujo matrimônio teve quatro filhos: 1) Adelaide, normalista, já falecida, prestou relevantes serviços ao ensino e hoje batiza um dos educandários estaduais em Brasília de Minas; 2) Eni, normalista, já falecida. Foi uma excelente professora.
Casada com Euri Hessinger, teve duas filhas, Aléxia e Telma. 3) José Maria, que faleceu, ainda muito moço, vitimado em serviços de sua profissão de laboratorista; 4) Dr. António Geraldo de Sousa Gomes, médico de grande clientela que tem se mostrado ser um excelente clínico e possuidor das qualidades inerentes para a bela profissão que abraçou.
Casado com Lúcia Martins, filha de Néco Martins, tem os seguintes filhos: Marco Aurélio e Antônio Egídio. De Bocaiúva, Egydio transferiu-se, posteriormente, para Brasília de Minas, onde instalou uma farmácia em 1932, que, mesmo após sua morte, ainda serve até os dias de hoje a população. Em Brasília de Minas, permaneceu até o seu falecimento que se deu em 23/09/1950. Possuidor de uma boa cultura intelectual, falava fluentemente o francês e conhecia bem a língua vernácula, além de jamais ter deixado de estudar e aprimorar os seus conhecimentos.
24 - O “coronel” Jésus Chateubriand de Souza formou-se em Farmácia em Belo Horizonte (MG) e foi Delegado de Polícia em Coração de Jesus (MG), onde faleceu em 1960, aos 58 anos.

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Ou seja, do romance entre o Capitão Camilo Cândido de Lélis e dona Adelaide Odília de Medeiros nasceu seu filho único, o muito amado Álvaro Augusto de Lélis, formado professor normalista pela Escola Normal de Montes Claros. Conta-se que o capitão Camilo
mandava colocar perfumes às águas que banhassem ao pequeno Álvaro.
Após o banho, jogava-se a água da banheira fora, o que incendiava toda a rua em que moravam dos mais agradáveis odores, muitos dos quais de colônias importadas da Europa.

Faleceu, aos 70 anos de idade, de morte natural, o capitão Camilo Cândido de Lélis, a 30 de dezembro de 1915, deixando um Testamento e bens a inventariar. Herdeiro universal do pai, Álvaro tornou-se fazendeiro e – com a experiência que adquirira como 1º Secretário da Liga Operária Beneficente em Montes Claros (1908) – político em Coração de Jesus, tendo feito parte, como Vereador, além da primeira legislatura (1912-1914)25, de que também fez parte seu pai26, de outras 04 (quatro) legislaturas ininterruptas (5ª, 6ª, 7ª e 8ª legislaturas, de 1927 a 1954) da Câmara Municipal de Coração de Jesus, onde serviu, no total, por cerca de 30 anos, como legislador. Álvaro (tal como o pai27) era homem culto, dado às letras, fluente em francês e em inglês e profundo conhecer da língua latina, sendo um
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25 - Na primeira legislatura (1912-1914) da Câmara Municipal de Inconfidência (hoje Coração de Jesus), foi vereador especial pelo então Distrito de Jequitahy, comunidade fundada pelo seu avô materno, Cel. Cypriano de Medeiros Lima – o Barão de Jequitahy.
26 - Que, inclusive, foi seu primeiro presidente provisório, do dia 24 de maio a 1° junho, a partir de então sucedido pelo Cel. Francisco Ribeiro dos Santos.
27 - O Cap. Camilo teve uma esmerada educação, pois era filho de professores e neto de distintos militares. Com o pai, militante do Partido Liberal, tomou ainda o gosto pela discussão e pelo embate político. Filho predileto, foi tão bem educado que versou-se
em francês e na língua latina e, durante sua vida (sobretudo a mocidade), arriscou-se no mundo das letras, quer dedicando-se a compor versos ou a contribuir para com as páginas jornalísticas. Na historiografia regional, autores como Nelson Viana (Foiceiros e Vaqueiros, p. 142) e Antônio Augusto Teixeira (Um caso antes de noventa, p. 110) narram o episódio no qual o Capitão Camilo, quando da Guerra Franco-Prussiana, em 1870, ameaça ao Imperador Dom Pedro II a alistar-se voluntário no exército francês, fluente que era na língua de Alexandre Dumas e Victor Hugo.

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assíduo leitor, tanto dos poetas clássicos quanto dos mais diversos periódicos. Admirador e estudioso da obra de Castro Alves, declamava de cor seus principais poemas. Casou-se (14/09/1907) em uma das mais tradicionais famílias brasileiras28, com dona Felicidade Perpétua Leal Tupinambá, fazendeira e professora que estudou em Diamantina, filha de dona Felicidade Perpétua da Silveira29 e do major Domingos Garcia Leal Tupinambás30. Do consórcio entre Álvaro e Felicidade, entre outros, nasceu Camilo Augusto de Lélis, cujo nome foi em homenagem ao avô paterno, e que, como o pai (Álvaro) e o avô (Cap. Camilo), também foi Vereador à Câmara Municipal de Coração de Jesus, cujo plenário leva seu nome em sua homenagem. A Álvaro Augusto de Lélis há, merecidamente, em Coração de Jesus, uma importante rua, no Bairro Sagrada Família, e uma Escola Municipal, na Fazenda Almecegas, que levam seu nome.

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28 - BARATA, Carlos de Almeida; CUNHA BUENO, Antonio Henrique. Dicionário das Famílias Brasileiras, Tomo II, p. 2216.
29 - Filha de Francisca Cardosina da Silveira (falecida em 15/07/1877) e Florentino José da Silveira (1808-24/07/1878), tetravós dos senadores da República Darcy Ribeiro da Silveira (1922-1997) e Carlos do Patrocínio Silveira (1942-), dos quais Felicidade Perpétua da Silveira é tia-bisavó; e, portanto, neta do inconfidente (Conjuração Mineira de 1789) João José da Silveira. Florentino José da Silveira, nascido em 1808 em São Gonçalo do Rio Preto (MG), foi negociante em Serra Nova (distrito de Rio Pardo de Minas) em 1840, fiscal municipal em 1842 e 4º Juiz de Paz do mesmo distrito, em 1863; fazendeiro, faleceu em sua Fazenda do Garrote e foi sepultado em Mato Verde (MG).
30 - O major Tupynambá foi membro do Partido Conservador, Oficial da Guarda Nacional, fundador e Subdelegado do Distrito de Furados (atual Distrito de Tauape, Município de Licínio de Almeida-BA), Termo de Caetité, no Sudoeste da Bahia; e fazendeiro e comerciante de grosso trato no Norte de Minas, que descende diretamente dos Garcia d’Ávila da Casa da Torre, e que era grande amigo do capitão Camilo Cândido de Lélis.

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Zoraide Guerra David
Cadeira N. 86
Patrono: Patrício Guerra

PRÓLOGO PARA
“OS PODERES DA LEITURA”

Ao tecer meu poema A Vida, assim me expresso:

A vida é o resultado
De operações fundamentais
De unidades, dezenas, centenas
De sonhos realizáveis,
E vitórias alcançadas.

E, como se fora para reafirmar minha visão poética sobre a vida, eis que um fato acontece.

O toque da campainha convocou minha presença e, ao abrir o portão, um quadro inusitado aconteceu.

Jeny Canela – minha aluna do curso primário na década de 60, na Escola Estadual Dom Aristides Porto – coloca em minhas mãos um grande envelope. Justificando seu gesto com palavras firmes, emolduradas pelos olhos em perfeita sintonia com os meus, deixando transparecer, confiança, carinho e gratidão, expõe seu projeto:

- Dona Zoraide, isto é um livro que vou publicar e gostaria muito que a senhora fizesse a apresentação.

Impossível expressar minha real surpresa, alegria e saudade que senti daquele educandário, onde a diretora Dona Maria Tupinambá e o corpo docente constituíam minha segunda família e aquelas crianças/alunas eram amadas e tratadas como filhos.

O tempo passou. Mas... como afirmo no poema, a vida é o resultado de operações fundamentais. Dentre elas, uma é colocar em prática o que aprendemos, não apenas para uma realização pessoal, mas para a promoção do bem comum. Através da leitura, Jeny Canela Perosso aprendeu, apreendeu e decidiu fazer a partilha do conhecimento com Os Poderes da leitura – uma obra literária de valor incomensurável.

Vivemos um momento em que a humanidade foca o poder como condição imprescindível para se considerar vitoriosa. E a fim de lograr êxito lançar mão de técnicas que engrandecem suas ações: mentiras, falcatruas, violência generalizada.

Felizmente existe exceção para este conceito de Poder. Jeny, com propriedade, expõe claramente o lado positivo do poder (da leitura), servindo-se de argumentos, análises e testemunho pessoal para convencer o leitor e as conclusões decorrentes são estímulos operantes:

A leitura é expressivo instrumento para o desenvolvimento de pessoas capazes de conviverem melhor com as semelhanças e diferenças preservando o espírito de justiça; a leitura proporciona viagens belíssimas de valor absolutamente incontestável para melhores
percepções do mundo; a leitura tem o poder de instigar a capacidade de discernimento que favorece uma valorização maior da competência humana, fazendo-nos mais próximos de princípios essenciais à vida em sociedade como: equidade, cooperação, solidariedade e melhores como filhos de DEUS; a família, sociedade e escola não podem
considerar secundário este recurso de excelente investimento para a formação de ávidos leitores e cidadãos ativamente políticos, capazes de posturas de caráter humanístico e partícipes mais atuantes na vida em sociedade.

A conclusão de que os textos estão embasados na verdade encontra-se explícita inclusive nos títulos de alguns capítulos: “Ler, é preciso ler/ Ler, logo aprendo e apreendo/ Leio, logo penso e sonho”.

A riqueza vocabularial da autora e precisão nos termos usados avaliam sua argumentação, sua experiência como professora formadora do Curso Normal Superior na UNIMONTES, trabalhando leitura, Produção de Textos e Licenciatura, estimulou-a a externar sua preocupação com a missão da escola e sugere:

As escolas precisam estabelecer como prioridade de Projetos Políticos Pedagógicos a formação de ávidos leitores. Quanto ao professor é necessário assumir postura de defensor, leitor e admirador da leitura literária para motivar os alunos a seguirem este belo e rico exemplo.

O poeta Patrício Guerra – meu pai – autodidata que alcançou os paramos da cultura tomando a leitura como instrumento permanente e satisfatório, na poesia Ser Mestra, alinha características dessa nobre missão, vindo assim a referendar as colocações da autora:

“Ser mestre é ser Vestal em vigilância
Do ideal do saber! Chama votiva
Que aquece e faz vibrar a alma da infância,
Em escala emocional e evolutiva.
Ser mestra é aprimorar-se na virtude
E irradiá-la depois na juventude
Edificando-a pelo bom exemplo.”

Parabéns Jeny! Os Poderes da Leitura, além de ser uma referência como produção literária, levou-me a concluir que como leitora pertinaz, sua trajetória é alimentada por “sonhos realizáveis”, proporcionando-lhe a satisfação da alçar o troféu da “Vitória alcançada”.

A DEUS, meu louvor!

A você a gratidão pela honra de tão nobre tarefa ao apresentála aos leitores e de sentir que as sementes lançadas no ontem germinaram, foram adubadas com zelo e estão transformadas em frutos substanciosos.


Jeny Canela


 



Honorato Ribeiro dos Santos
Sócio Correspondente
Carinhanha - Bahia

A MORTE DO VELHO CHICO

Eu já editei vários cordéis que fala sobre a depredação do rio São Francisco. Um deles e o último que tem este título desta crônica. O rio São Francisco foi descoberto por Américo Vespúcio e André Gonçalves em 1501, no dia 4 de outubro; recebeu o nome do grande santo jovem, Francisco de Assis, porque esse nome de Assis é nome da pequena cidade italiana onde ele nascera e era amante da natureza e a defendia louvando-a e exaltando-a. Quando descobriram o rio, já havia moradores: Os indígenas, que chamava o rio de Oporá, isto é, grande mar. Depois veio a chamá-lo de Rio dos Curais, Rio da Integração Nacional e simplesmente, carinhosamente de o Velho Chico.

Mas o que eu quero ressaltar, aqui, nessas pequenas linhas, é como iniciou a depredação no Velho Chico. Muitos ribeirinhos sentem saudades dos vapores que eram mais de 40 e transportes baratos. Embora fosse lento e muitos dias de viagem de Juazeiro a Pirapora, os turistas gozavam em ver a beleza de suas margens com suas plantações de milhos, feijão de vazante e outras plantações para o consumo dos ribeirinhos, como a batata doce, a mandioca, mas deixa a desejar os restos de imundícies e dejetos jogados no Velho Chico como se ele fosse uma geena ou monturo de lixo. Esta é uma pequena amostra das tantas poluições ao Velho Chico, pai arrimo dos ribeirinhos.

 

Vamos ao caso mais obtuso. Os vapores eram abastecidos as suas caldeiras a vapor por lenhas. Havia muitos portos de lenha; os vendedores de lenha vendiam em metros quadrados para abastecimentos dos vapores e ganhavam muito dinheiro nas vendagens da madeira. O governo federal, através da companhia do Vale do São Francisco, mandou derrubar todas as árvores que sustentavam com as suas raízes os barrancos das duas margens, a começar da beira do rio a cem metros adentro. Quando o inverno chegava com chuvas fortes, as enxurradas corriam com força e velocidades para o Velho Chico; e o que estivesse à sua frente elas levavam até os barrancos caiam fazendo ilhotas, coroas, e o lençol do rio subia velozmente e impedindo toda a navegação, até de pequenos barcos a motor. As coroas crescendo cada vez mais e o rio secando e preste a desaparecer. Morrendo o rio ele leva consigo os ribeirinhos.

Quem era esse rio tão caudaloso, forte e valente e com peixes em abundância? E agora está em agonia de vela na mão pedindo socorro e ninguém lhe atende? Enquanto isso os parlamentares brigam de unhas e dentes, a fim de defenderem suas siglas partidárias até
o ponto de ofender os pares daquela casa legislativa, fugindo-se da realidade para buscar, - garantido no seu foro privilegiado - a contra partida indecente e arrogante de ser ouvida pelo povo brasileiro de que o parlamento não tem moral para julgar...

Enquanto isso a educação, a saúde, a segurança estão falidas e o povo à míngua sem nenhuma solução! O que falar, então, dos nossos rios? O que falar do grito do Velho Chico pedindo socorro? Quem irá socorrê-lo? “Eu tiraria a fome do mundo se eu tivesse um rio como este”. Mas quem é que tem investimento e projeto para tal!? Ainda terá de nascer... Quem ler esse meu relato em crônica, venha conhecer a realidade do Velho Chico ante que ele morra à míngua!

Voltando a dizer sobre a Navegação Baiana e Mineira que deixaram de navegar, e isso foi muito bom para a ecologia embora continuassem jogando agrotóxicos, através de seus afluentes; os dejetos da capital mineira com esgotos a despejarem no afluente Rio das Velhas e todas as cidades ribeirinhas sem nenhum tratamento, derramam tudo de ruim para dentro desse pobre rio da Integração Nacional. Depois de tantas malvadezas que praticaram conscientemente contra o Velho Chico, sem fazerem nenhum revitalização, gastaram dinheiro a montão, - nosso dinheiro – para a transposição sem pensar como vive o Rio São Francisco e os ribeirinhos! É de se lamentar.



Maria das Graças Patrocínio Oliveira
Convidada
Brasília - DF

Ela nasceu para brilhar


Caros conterrâneos montes-clarenses,

Quero lhes falar sobre uma mulher notável e incansável que, entre as múltiplas coisas que faz, vive a escrever sobre a gente de Montes Claros, sendo justo que desta vez ela seja a homenageada. Refiro-me a Felicidade Maria do Patrocínio Oliveira – Felicidade ou Feli para uns, Dade e Sá Felicidade para outros, entre estes, nós, seus familiares.

Dade nasceu em Montes Claros, num lar de classe média e prole numerosa (esta continuaria aumentando após o seu nascimento, até completar doze). A mãe, Edite Gonçalves de Oliveira, era professora primária e o pai, Dário Dias Silveira, tirava o sustento como caixeiro-viajante. Quando, após quatro partos, parecia que naquela casa só nasceriam homens, ela foi a primeira filha mulher a nascer. Sua chegada já por isto foi muito festejada. Também, pela linda princesa que ela era, a desbancar o reinado masculino vigente até então. Sem falar que a recém-nascida já dava sinais de que não seria uma pessoa comum.


Maria das Graças e Felicidade Patrocínio

Nascida num 12 de junho, Dia dos Namorados, nossa personagem está completando 70 anos, que ela, sem a menor sombra de dúvida, classificaria como bem vividos. Talvez por isso longe dela aparentar a idade que tem. O sorriso espontâneo, a juventude e a alegria de viver, notórias características suas, a fazem parecer uma linda mulher na flor da idade.

Que ela é envolvidíssima com arte e que esta é como oxigênio para ela, a ponto de não poder viver longe dela nem por um dia, não é novidade para ninguém. Mas o que nem todos sabem é que essa sua paixão vem desde a mais tenra infância, havendo começado com a música. A jeitosa menininha, mesmo quando o instrumento era quase do seu tamanho, pegava o acordeão do pai e solfejava as músicas que captava de ouvido. Depois, seria a vez de estudar piano e teoria musical no Conservatório de Música Lorenzo Fernandez. Mas aí, com o tempo passando e a jovem se transformando, interesses outros terminaram a levando a pôr a música de lado.

O fato era que a menina havia virado moça, e não uma moça qualquer, senão a própria Audrey Hepburn de Montes Claros. Assim pelo menos, com respaldo no seu biotipo e elegância, alardeavam os cronistas sociais da época, que na certa andavam assistindo a filmes como O passado não perdoa (1960) e Bonequinha de luxo (1961), entre outros grandes sucessos do cinema protagonizados pela multipremiada atriz britânica.

Semelhanças com a inesquecível estrela de Hollywood à parte, Dade começou a trabalhar muito jovem, contribuindo nas despesas de casa. Seu primeiro emprego foi de professora no Jardim de Infância Deputado Antônio Pimenta, e uma das raras lembranças que retenho de minha infância foi vê-la, naquele educandário, protagonizando o musical A baratinha. Sua voz de cantora maviosa ficou indelevelmente gravada na minha memória, em especial ao cantar o trecho de uma canção do musical que dizia assim: “Quem quer casar com a Senhora Baratinha, que tem fita no cabelo e dinheiro na caixinha?”.

Pois a Sra. Baratinha apaixonou-se muito cedo e o amor, em grande parte à distância, uma vez que o amado trabalhava fora, a impediu de viver a sua juventude com mais plenitude e de ampliar o seu mundo. Casou-se aos 20 anos com o conterrâneo Carlos Leite e mudou-se para Uberaba, onde o marido exercia a advocacia. Em Uberaba, fundou na sua própria residência um jardim de infância,pois com as duas primeiras filhas ainda pequenas necessitava estar por perto. Depois de algum tempo, mudou de negócio, passando a dedicar-se a um ateliê de costura, onde produzia e vendia roupas. Ou seja, virou modista!

Devido a seu dinamismo e criatividade, se tivesse perseverado como modista, talvez fosse hoje rica. Sendo, porém, de espírito irrequieto, só lhe restava mesmo continuar seguindo em frente, se experimentando e se forjando, até descobrir sua verdadeira vocação. Pois
esta, conforme desde o berço se prenunciava, era mesmo de artista, e uma artista completa. Artista ceramista, artista que faz artes plásticas e que inclusive milita nesse meio, e artista que escreve, sendo, portanto, também escritora.

Essa minha irmã está sempre se reinventando. Em ocasiões, se aventurou em participar de concursos literários – prosa e verso – e, em todas as modalidades de que participou, ganhou o primeiro ou o segundo lugar. Foi aí que despertou em definitivo para as letras.

Depois de ter voltado a viver em Montes Claros, estudou e se formou em Filosofia na Unimontes, após os 40 anos de idade. Deu aulas de filosofia no Seminário Maior.

Felicidade tem o dom da oratória. Nas festas em família, como o Natal, ou em velórios, são de praxe seus inspirados discursos. É devota de São Francisco de Assis, daí tratar a todos com distinção, independentemente de classe social.

Mulher de múltiplos talentos, onde se aventura se dá bem. Obras de arte suas se encontram espalhadas pelos quatro cantos. Exemplos disso são seus vitrais a embelezar várias igrejas de Montes Claros e uma escultura no Mercado Municipal, simbolizando o mais famoso fruto da terra, o Pequi. E o que dizer de sua casa? Dizer que ela, a começar pelo que se vê na calçada do lado de fora, virou um surpreendente museu a céu aberto é pouco. Veja-se se não.

Em março de 2011, concretizando um velho sonho, Dade inaugurou sua galeria de arte, a qual, diga-se, lhe custou um bom pedaço do seu quintal. Em compensação, ali hoje se exibem sejam obras suas, sejam obras dos artistas da cidade, com o espaço sendo também utilizado para cursos de artes voltados tanto para crianças como para jovens e adultos. Não parando aí, criou o Clube de Leitura, onde livros de autores clássicos e contemporâneos são apresentados por especialistas convidados e discutidos com o público. Inventou ademais o Escambo de Livros, evento que a cada edição confirma o seu sucesso, com as pessoas trocando e adquirindo livros a preços de pechincha. Não podemos nos esquecer, ainda, do projeto Livro Livre, que consiste em deixar do lado de fora da casa uma prateleira com livros para que o leitor apanhe o seu exemplar e possa também deixar alguns. Uma ideia que está se propagando pela cidade.

Para Dade, na vida, a arte é fundamental. É comum ouvi-la dizer, parafraseando Santo Agostinho, que “a arte é um caminho para Deus, é a busca da beleza; e o belo, em si, é Deus”. Foi presidente da Associação dos Artistas Plásticos de Montes Claros.

Feli é uma estrela e, por isso, se sente muito à vontade na televisão. Na primeira vez em que esteve em Paris, foi à Praça da Bastilha, onde uma grande multidão estava a comemorar o dia da Queda da Bastilha. Alguém a convidou para dançar e, ao bailar suavemente, foi televisionada pelo canal francês.

Jovens e adultos adoram estar perto dela. Cultiva muitas amizades. Sempre muito educada e delicada, é o que chamamos de pessoa politicamente correta. Mas, quando tem que falar francamente, é firme em suas posições, sem nunca ofender. Tem um brilho que reluz, não é à toa que é guru de muita gente.

Felicidade – nunca um nome casou tanto com a pessoa!

Não tem tristeza na sua vida. É uma mulher sociável, que brilha em todos os quadrantes da sociedade, não só de Montes Claros como também do Norte de Minas.

Por ser também uma mulher corajosamente engraçada, sem medo de ser feliz nem de se expor, poderíamos rememorar muitasocasiões cômicas e mesmo hilárias em que ela nos fez rir. Após ter-se divorciado, Dade, mesmo sem falar fluentemente nenhuma língua estrangeira, conheceu um cientista holandês por quem se apaixonou e com quem começou a namorar. Como ela se comunicava com ele? Ora, fazendo caras e bocas e uma boa salada de frases e palavras em inglês, português, francês e espanhol, senão também italiano. Nem quando a interação era por carta ou e-mail, ela se dava por vencida, ainda mais depois que descobriu a maravilha que é o Google Tradutor.

Vê-se a grande comunicadora frente a qual estamos. Tudo nela é intenso. É a mulher dos adjetivos, mas de adjetivos afirmativos, motivadores. Se lhe perguntam: “Dade, isto está bonito?”. Ela diz: “Está maravilhoooso!!!”. “Isto está bom?” “Está perfeeito!!!” Sua escrita reflete essa sua característica superlativa.

Caros leitores que me acompanharam até aqui, eu bem que adverti no início desta fala: nada nessa mulher é comum. Tudo nela exagera.

É uma mulher charmosa e carismática que, com seu jeito coquete, jamais deixou de despertar a admiração dos homens. É sonhadora e “mais romântica do que a lua cheia”. Não se queixa de nada; problemas de saúde ela prefere resolver sem alarde. Só chora de pobreza, afirmando que artista plástica não ganha nada.

Dade é uma pessoa generosa. Sua generosidade e predisposição para ajudar não encontram limites, está sempre disponível, não importa quão atarefada esteja. Apenas para ilustrar o que digo, havia em Montes Claros uma figura conhecida como Tião de Maria, homem alto, magro, barbudo, a roupa invariavelmente surrada, que gostava muito de café e vivia de pequenos serviços que prestava nas casas, como uma limpeza no quintal, um reparo, etc. Tinha por protetora Maria Sá Rosa, em cuja casa dormia. Quando Maria morreu, Dade deu abrigo a ele no lote que ficava ao lado de sua casa e onde ela mantinha um ateliê de cerâmica. Todos os dias lhe servia refeição, até queum dia, ao lhe levar o prato de comida, sua filha Marília o encontrou morto.

Essa minha irmã é uma otimista incorrigível. Espera sempre o lado bom da pessoa. É uma anfitriã perfeita. Hospedar em sua casa é uma mordomia só. São tantos mimos e atenções, verdadeiros desvelos.

Dade é uma mulher que sabe se renovar e reciclar. Desde que se formou, não perde uma oportunidade de viajar e conhecer outros países e culturas, já tendo percorrido os Estados Unidos, Canadá, Europa, África do Sul. Seu gosto por uma boa aventura e seu afã em conhecer as formas de arte existentes em cada canto do mundo são mais fortes que seu medo de voar.

Foi assim que em 2015 nós embarcamos numa excursão rumo aos Balcãs, no Leste Europeu. Na ocasião, confesso que estava preocupada com o que poderia acontecer durante a viagem, pois ela andava com um problema no coração e, imprudentemente, não havia tomado o cuidado necessário, deixando de se submeter a um certo procedimento médico. Quer dizer, a coisa pela frente poderia se complicar para o lado dela. Assim sendo, foi uma surpresa e uma grande ironia que naquela viagem quem viesse a ter problemas de saúde fosse eu. Quando estávamos em Split, na Croácia, após já havermos excursionado por vários países daquela região, eu tive um prolongado mal -estar, diagnosticado como infarto. Era o fim da excursão para mim. Eu teria de fazer cirurgia de ponte de safena e esta, na avaliação do doutor croata que me socorreu, não poderia ser no Brasil, pois meu coração poderia não suportar tão longa viagem num avião. A Dade não piscou o olho. Dali, sem mim, ela não sairia, mesmo sabendo que nosso irmão Roberto já estava vindo do Brasil para ficar e voltar comigo. Enquanto o mano não chegava, ela, comigo hospitalizada, se viu só em Split, tempo que aproveitou para sair à procura de um imóvel para alugar, já que hotel naquela cidade – destino turístico à beira do Adriático muito procurado –, e naquela época, não é nada barato.

Quando o Roberto chegou, ela já estava com o aluguel praticamente resolvido: um belo apartamento mobiliado e com uma estupenda vista, e tudo por uma pechincha. Seus limitados conhecimentos de inglês não a impediram de ir à luta.

Minha irmã não se deixa intimidar pelas adversidades. Foram quase trinta dias em Split, até os três podermos pegar o avião para Paris, onde a Dade ficaria por uma temporada cultural. Solidária, ela preferiu adiar Paris, ficando até o fim, me dando suporte. Ela não mediu esforços nem sacrifícios. Santa Felicidade!

Há uma frase que me remete a ela: “Não sabendo que era impossível, foi lá e fez”. É uma mulher que ousa, é gente que faz.

Dade tem três lindas filhas, Ana Paula, Marília e Cecília (suas melhores obras de arte), que possuem a mesma verve que ela, sendo mulheres dinâmicas e bem-sucedidas. Seus dois netinhos, Vinícius e Manuela, são sua maior alegria.

Mulher extraordinária, Felicidade é uma das personalidades da cidade. Seguidas vezes foi homenageada como Mulher de Ação, é membro da Academia Feminina de Letras, integra o Instituto Histórico e Geográfico. Pelo tanto que faz e já fez pelas Artes, Cultura e Letras de Montes Claros, é bem possível que um dia resolvam lhe conceder o título de Cidadã Honorária, o que seria muito justo.

Sua vida daria um interessante e cativante livro, mas ninguém melhor do que ela para escrevê-lo. De maneira que vou ficando por aqui, desejando-lhe vida longa, muita saúde e muitos anos mais de trabalho em prol da comunidade. Gratíssima, mana, por tudo!


Memórias

O CAFÉ GALO VEIO DE LONGE

José Prates

Quando leio alguma coisa referindo-se ao Café Galo em Montes Claros, respeitadas as proporções eu o comparo à confeitaria Colombo, na Rua Gonçalves Dias, centro do Rio de Janeiro, símbolo do que representou a belle époque na cidade. A confeitaria inaugurada em 1894 por dois portugueses e que foi o local de reuniões de intelectuais e políticos, não desapareceu. Continua em atividade, sem, contudo, exercer aquela influencia no meio intelectual e político como dantes. O Café Galo, hoje famoso naquela cidade mineira, por ser, também, um local de reuniões de intelectuais, jornalistas e gente famosa da cidade, está sempre no noticiário da imprensa local. Poucos, porém, conheceram a sua origem numa cidadezinha do sertão baiano, chamada Urandi que tomou impulso e começou a crescer quando o DNER chegou por lá com seu pessoal, por volta de 1942. Nessa ocasião já existia o Café Galo. No início de minha adolescência, em 1941, cheguei em Urandi para residir na companhia de meu Padrinho Mulatinho e seus filhos, meus primos. Foi, então, que conheci esse Café que era frequentado por todo mundo, velhos e jovens atraídos pelas suas novidades. Imaginem que numa cidade onde só havia quitandas e botequins com negócio de bebidas e cereais,“seu” Augusto Alves, de bom tino comercial, resolveu instalar um bar, cópia dos que ele conhecia na cidade grande, Montes Claros, onde sempre estava a negócio. Foi dessas idas e vindas que nasceu em“seu” Augusto a ideia do Café Galo que se materializou no “largo” do


Foto tirada em 1950, bem em frente a agencia do IBGE, no prédio da antiga prefeitura
de Urandi. O segundo da esquerda para a direita é o Sr. Augusto Alves, que ao se mudar para Montes Claros com toda sua família, deu origem ao famoso Café Galo.

mercado, esquina com a rua de cima. Mesmo com placa no alto da porta, com a figura do galo pintada por Gumercindo Guedes, pouca gente chamava o estabelecimento pelo nome de batismo: geralmente diziam “o bar de “seu” Augusto”. Pra aquela cidade, era coisa moderna: tinha rádio, coisa que pouca gente possuía. Passava a funcionar a partir das 18 horas quando chegava a luz elétrica. Ai, então, era a atração de todo mundo para ouvir a “hora do fazendeiro” transmitida pela Rádio Inconfidência; o recém-criado Repórter Esso, na voz de Heron Domingues com as noticias da guerra. Ás 8 horas, vinha o programa oficial a Hora do Brasil, com noticiário do governo em transmissão obrigatória, igual o horário eleitoral de hoje. Tinha mais: geladeira a querosene de onde saia o picolé que regalava a meninada e a cerveja gelada que só ali existia; No salão ao lado, estavam o Snooker (sinuca) e o bilhar onde a rapaziada disputava partidas, apostando cerveja. Foi ali que eu e meu primo Artur aprendemos esse jogo, escondido do velho.

Cenas interessantes, ás vezes, aconteciam ali. Eu me lembro de uma comovente ocorrida em 1941, quando o Brasil declarou guerra à Alemanha. O salão de sinuca estava cheio, todos ouvindo a Hora do Brasil, quando em edição extra entra o Repórter Esso e anuncia: “O Brasil mobilizado declara guerra ao Eixo. Estamos em guerra!” Todos os presentes ficaram de pé e entoaram o Hino Nacional. Eu gritei “Viva o Brasil” e todo mundo respondeu, brindando com cerveja gelada Até 1945 vivi em Urandi, em companhia do meu Padrinho Mulatinho e meus primos. Admitido na Central do Brasil, fui para Montes Claros onde passei a residir. Voltei a Urandi em 1948, quando revi o Café no Galo, ainda no mesmo lugar que eu o conheci.

Em 1955 ou 1956 quando eu trabalhava na Real Aerovias, junto com o Sr, Natércio França, na Rua Simeão Ribeiro em Montes Claros, vi a placa do Café Galo que se instalava na esquina com a Rua Governador Valadares. Fui até lá e verifiquei que era o mesmo de Urandi. Lá estavam “seu” Augusto e seus filhos inaugurando o Bar. Obviamente, no seu inicio não teve o movimento a que estava acostumado na sua cidade de origem. Começou devagar, como qualquer outro bar da localidade. O tempo passou, fui removido para o Rio de Janeiro e hoje vejo o Café Galo no noticiário dos jornais como centro de reunião de intelectuais daquela terra. Bonito, muito bonito! É a volta ao passado. Quando eu for a Moc, irei até lá em companhia de Felipe Gabrich e Márcia que me vão pagar o café.

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NOTA: José Prates, 84 anos, é jornalista e Oficial da Marinha Mercante. Como tal percorreu os cinco continentes em 20 anos embarcado. Residiu em Montes Claros, de 1945 a 1958, quando foi removido para o Rio de Janeiro, onde reside com a família.É funcionário ativo da Vale do Rio Doce, estando atualmente cedido ao Sindicato dos Oficiais da Marinha Mercante, onde é um dos diretores).
FONTE: Internet

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